sábado, 7 de maio de 2011

O PASSADO É O ALICERCE DO FUTURO


CRENJA
CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA
União, Solidariedade, Saber e Luta!
Blog: crenja.blogspot.com
EM MEMÓRIA AOS ANCESTRAIS

Há quarenta anos, quando fui chamado a participar de uma campanha em prol de conscientizarmos e, posteriormente, libertarmos nosso povo do jugo que ainda se encontrava meu eu exultou.
De princípio parecia fácil à empreitada. Bastava convencermos este, o que parecia ultra fácil, e então, junto, partimos para a solução de todos os nossos mais premente e cruentos problemas. Estes que ora pareciam apenas “frutos” da atitude aleatória e de ignorância por parte dos brancos. Aliás, na época, o tal “militante histórico” do movimento negro atual que dizia, “O branco brasileiro não sabe que é racista. E quando nós o convencermos de que é ele mudará de postura.” Bem, quanto a este personagem eu creio que já falei o suficiente... Não creio ser mais necessário perder tempo. A ele o tempo e a história responderão.
Como eu disse, no começo tudo parecia muito fácil, bastava angariar subsídios e divulgá-lo. Os negros brasileiros entenderiam fáceis, e assim como também dizia o personagem citado, o mundo branco também o seria... E tudo estaria resolvido, ao contento.
Creio que não seja necessário dizer também que na época todos nós éramos jovens. Os pouco mais velhos que nós, como por exemplo, Odacir Matos, eles me pareciam céticos. Mas, atribuíamos isso o provável recalque ou preconceito de épocas. Diz-se que os velhos são sempre saudosistas... No entanto, hoje que sou também velho reconheço apenas que são sábios – o que também não quer dizer que todos os velhos o sejam, pois, os estúpidos também envelhecem... E continuam estúpidos. Muitos até ainda muito mais. Todavia, em se tratando de ancestrais pouco importa se foram gênios ou não. Devemos apenas preservá-los e venerar. Entretanto, isso nós negros brasileiros ainda não fazemos. Também, pudéramos, nós até agora ainda nem sabíamos que os temos ou que existiram.
Diz a lenda nacional que “desde que o primeiro negro – ou africano – que pisou nestas plagas resistiu à condição de escravidão”. Quer dizer, isso até pode parecer até romântico, mas daí para ser um axioma há milhares de quilômetros de distância. Senão vejamos.
Desde o princípio de nossa pseudo-reação, que data da década de 70 do século passado, que vivemos garimpando a história a cata de subsídios que nos leve a justificar esta afirmação... E ainda não a encontramos. As chamadas reações são pífias, senão obsoletas. Balaiada, Sabinada, Alfaiates, todas foram revoltas de categorias, onde inclusive participaram brancos e alguns índios. Estas que hoje servem apenas para o movimento negro justificar aquilo que ele mesmo diz combater por ser falso: a “democracia racial” – até o reino de Angola Janga, que eles a mando do branco chamam indevidamente de “quilombo dos Palmares”, o movimento negro diz que foi uma república – o que é desmentido por Mário Martins de Freitas, em O Reino Negro de Palmares – e democrática. Pois lá, segundo eles, habitavam “negros, índios e brancos”. O que eles somente não conseguem explicar é o que foi feito destes quando da derrocada de Angola Janga, em 1694. Será que também foram lançados aos abismos junto a nossos ancestrais? Ou viraram a casaca e assumiram aos inimigos e invasores? Estas, entre milhares de outras, são as incógnitas que ainda haveremos de desvendar.
Resistência, ao nível de dicionário, é exercer uma força superior ou igual à que nos é impelida... Agora, se o que o negro brasileiro faz é resistência das duas uma: ou eu devo jogar o meu – e outros tantos – dicionário fora; ou senão jogar fora os poucos diplomas dos quais disponho, porque ainda nem aprendi a ler.
E por falar nisso, há pouco tempo alguém me cobrou: “E aí Neninho, ocê já tirou o seu diploma universitário?”. E eu fiquei... Fiquei desolado! Imaginem, eles ainda me cobram isso. Não tem nada de ver, curso universitário é apenas uma profissão ao nível superior. E eu nunca quis ser médico, advogado nem pensar – pois, é a maioria pilantra e arrogante – afora raras exceções, hé hé hé -, ou outra profissão qualquer. Aliás, eu tenho vária, e não sei se são inferiores as demais!
Entretanto, para me sair do sufoco respondi acidamente: “Eu? Ah! Ainda não. É que eu estou com medo de pegar corruptite”. Ah! Meu interlocutor ficou indignado! E respondeu também áspero, “Mas não é todo mundo que é formado que é corrupto!”. Eu concordo me corrigi ao perceber que o idiota mordera a isca, então conclui, acrescentando que “Ocê há de também concordar comigo, que todos os corruptos têm diploma universitário ou “superior”“. “Pois não os tivessem seriam chamados simplesmente de ladrões e fatal e irremediavelmente vão pra cadeia”. Esta é a lógica da vida social ocidental – no Oriente eles cortam as mãos... Dos pobres é claro!
Mas voltando aos nossos ancestrais. Em outro debate me asseveram que o negro brasileiro tem consciência, esta que, aliás, chama de “consciência negra”, como que esta pudesse ter cor. Já pensou? Consciência branca, consciência vermelha, consciência amarela, verde, amarela, azul e branca! Seria um mosaico de consciências. Um verdadeiro festival cromático. Mas, deixa pra lá! Todavia, mesmo assim eu acho que o negro brasileiro deveria apenas ter consciência. O que já seria suficiente. No entanto, ele só tem cabeça para ostentar trancinhas, e ficar balançando-o para imitar o branco.
Não obstante, para não deixar barato respondi com outra auspiciosa pergunta: “Como é que pode o negro brasileiro ter consciência se ele não tem memória?” Ah! Creio que também seja desnecessário dizer que, também desta vez, eu fiquei sem resposta.
Eu entendo todas estas coisas, que o negro brasileiro passou por um período de trezentos e setenta anos no regime de escravidão, que desde a Constituição de 1823 que foi impedido, em sendo comparado aos que portavam doenças contagiosas, de frequentar escolas, que após a maldita “abolição”, donde foi lançado ao ostracismo e indigência... E continuou, por vários anos, bem longe destas. Tudo, tudo isso eu entendo! Mas, atualmente nós, mesmo que exangue algum acesso, afora o expediente do autodidatismo – que mesmo que não tenha o valor de mercado, mas pelo menos serve para se esclarecer, e consequentemente escapar das armadilhas do mundo ocidental opressor. Se não totalmente, pelo menos em parcial.
Todavia já contamos com um corpo razoável de intelectuais, estes que vão desde mestrados até mesmo ao doutorado... No entanto, de que nos vale isso? Enquanto comunidade, nada! Isso só os faz passar para o outro lado e ajudar a nos discriminar e ao nosso extermínio. Somos pobres. E o destino dos pobres no mundo já está determinado. Foi lançado às lixeiras e condenados ao genocídio físico e intelectual. Coisas da civilização... Ou sabe-se lá como se chama!
No que tange à memória nós do CRENJA lançamos a campanha em prol de um memorial. Antevendo a reação dos negros brasileiros, estes que são anversos a tudo que “pode incomodar o branco” nós denominamo-lo de “Memorial da Escravatura Negra nas Américas”, pois se o negro brasileiro não quiser participar... nós procuraremos ajuda em outras plagas ... E o negro brasileiro que continue “resistindo” no veículo deplorável da miscigenação. Aliás, o que os deixam com dois ancestrais: um africano e outro europeu – não sei se bem nesta ordem! É que o negro brasileiro, apesar da desfaçatez, tanto é afrodescendente quanto euro descendente, ao sabor de suas necessidades e interesses momentâneos. E somente sairá desta condição se abdicar de uma destas ascendências. Ou será negro, ou será branco. Eles que o decidam! Agora, ser os dois ao mesmo tempo não dá!
Quanto aos nossos ancestrais nós iremos reverenciá-los, reescrevendo as suas verdadeiras histórias. Pois, nós da verdadeira resistência, não assumimos esta história torpe, tediosa e chula que os brancos forjaram para nós outros.
Axé Olorum! Ainda estamos em e na luta.
São Paulo, 28 de abril de 2011.
Neninho de Obalúwáyié
Coordenador Geral do CRENJA

v     PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
v     PELA IMEDIATA DESOCUPAÇÃO DO HAITI!
v     PELO CESSAR DO EXTERMÍNIO DA JUVENTUDE E INFÂNCIA NEGRA NO BRASIL!
v     PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS!

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