CRENJA
Centro de resistência negra jagas angola
União, Solidariedade, Saber e Luta!
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É! MAIS UM GUERREIRO QUE PARTE...
Estávamos no gabinete da Deputada Lecy Brandão, e foi quando recebemos a noticia por intermédio de um assessor teu, Roberto Almeida de Oliveira (o Beto), de que o Senador Abdias do Nascimento acabara de ser visitado por “Iku” [1]. E deixava-nos...
Foi terrível e profundamente lamentável! Pois o Abdias – desculpe-nos a intimidade, que, aliás, tínhamos -, acompanhou-nos em momentos mais difíceis e adversos de nova vida e luta na nossa trajetória militante. Assim como nós também o acompanhamos por toda a tua e o admiramos por tal. Dizemo-la, reluzente e profícua.
Dizer que fora ele um mero militante do movimento negro... Cremos ser um exagero de eufemismo. Abdias do Nascimento lutava pela classe artística negra. Revoltou-se – aliás, como todos nós à época, mesmo que não manifesto de nossa parte -, ao ver em sua época os personagens negros consagrados internacionalmente e aqui protagonizados por artistas, embora também talentosos e consagrados, brancos.
Pintavam-se seus rostos de preto, para desempenhar tais personagens. E sob o argumento de que “não havia atores negros capacitados em representar tais papéis”, estes foram alijados. E isso se caracteriza não somente em simples luta de classe, mas sim luta pela dignidade de um povo aviltado e ultrajado, que ora protagoniza o papel de vítima e do desprezível papel real, nesta peça tragicômica que se transformou e ainda se encena a história da realidade brasileira.
Defendeu também a classe acadêmica, até com muito brilhantismo, que se na condição de leigos nos seja isso permitido e legítimo avaliar. Todavia, sendo, portanto mais esta outra de sua luta de classe e de raça que resplandece em nosso rico repertório de interpretações. Ou melhor, por classe e por raça. Em ambos os casos, e também em ambos refletidos e grafados em nossa verdadeira história.
Não que a luta de classe não seja, atualmente, mais um dos problemas para o negro brasileiro, hoje dito, sem muita propriedade, “afrodescendente”.
Pois o é. Edificado e herdado do capitalismo que nossos ancestrais, mesmo que contra a vontade própria ou inconsciente, ajudou a criar. Todavia, como dissemos, seu efeito é um problema recente que ora nos assola. E ainda estamos por “degusta-lo”, e consequentemente resolvê-lo. Se o branco não o fez, nós o faremos. Pois não gostamos ou toleramos revoluções pela metade... Ou nada.
O movimento negro se visualizou, no Brasil, não por iniciativa do próprio negro nacional. Não! Muito pelo contrário, pois ele o temia no passado e, diga-se, o teme até a atualidade. Pois, em caso contrário, ele o comporia massivamente como ativista. Ou não o entendeu ainda! A culpa? Bem, isso é o que nós ainda estamos analisando.
Mas seu surgimento, aqui no Brasil, foi indiscutivelmente por influência da esquerda branca e classe-média brasileira, estimuladas pela Internacional, que se debatia contra o “autoritarismo”, este que a espoliava, e que, naquele momento crucial, esta detectou como uma arma contundente, objetiva e eficaz para intimidar e arrefecer os ânimos e ímpetos da ditadura militar: a questão racial.
Todavia! Infelizmente – e mais uma vez talvez por ingenuidade -, nós fomos simples e simploriamente usados. Como já o fôramos anteriormente a inúmeras vezes. A nossa revelia e sem contrapartida. Que o diga a História. E isso também Abdias denuncia em seus livros. E nós, da Resistência, o entendemos.
Num ato de descontento e por que não de raiva, Abdias rompeu com esta esquerda pérfida, que se propõe a defender os interesses do povo, no nosso caso o geral, partindo do princípio de que somos uma sociedade multirracial, obstantemente, que sabemos não totalmente miscigenada, como dizem! Entretanto, sim, somos de povos e origens diferenciados. Isso sem sombra de dúvidas. Senão somente moral e espiritualmente.
Todas as demais raças preservam suas culturas. No entanto, nós ainda somos reprimidos, ou temos que aceitar determinações e ainda somos discriminados, apesar de louvores a uma suposta “democracia racial”, fundamentada esta até por leis, porém, estas não respeitadas, e que nunca vingou ou vingará. Somos discriminados e desrespeitados mesmo dentro de nossa própria cultura, história e comunidade. Ora ainda sob os seus controles.
Não éramos escravos, e ainda o somos aos seus entenderes. Ah! Isso é. Temos apenas uma cultura miscigenada, aos seus sabores. Não obstante ainda também temos origens. E esta Sua Excelência Abdias também destacou e nos revelou em seus escritos e atitudes.
Na luta de classes, no entanto, tanto o movimento negro quanto a esquerda, dita “progressista”, falhou. Pois nos deixaram de fora da luta, se for que a venceram. O que pelo que vemos nós o duvidamos muito. Findos, se ainda existirem, por defender somente os seus próprios interesses e os dos nossos opressores. Os de classe e raciais. E para não variar nós, os negros pobres e pretos, ficamos novamente de fora. Outrora somente do mundo branco, há 124 anos passado, e ora também do mundo dos negros. Pura abstração. Delírio, ser discriminado por aquele que se diz ser nosso próprio povo.
O movimento negro atual foi surgido da criação da esquerda branca. Que nos levou para mais este engodo. A perpetuação da maldição da senzala e serventia. Nesta que, aliás, entramos à nossa mais absoluta revelia, assim como a ociosidade imposta. E de maneira dramática e pungente.
Vossa Excelência, Abdias do Nascimento, foi também político. Impuseram no Parlamento e Congresso normas, procedimentos e questionamentos que estes não esperavam e nem estavam preparados para recebê-los... Tiveram que engolir as nossas vestes tradicionais de origem como de rigor. Porquanto, apenas contemporizaram... E tendo que engolir os seus próprios desconfortos.
Lemos todas de suas revistas Thoth publicadas no seu período de Senado Nacional. Onde lhes impunha a nossa presença e a nossa altivez, embora tímida de nossa parte, mas protagonizadas nas figuras mundanas, e que estas foram grafadas por gestos singulares. Revistas estas que, aliás, foi nos agraciadas e disponibilizadas pela, agora, indiscutivelmente inconsolável e respeitosíssima viúva, Senhora Eliza Larkin Nascimento. A quem agradecemos o permanente apoio e apresentamos os nossos mais sinceros votos de pesares, com extensão a toda família. Que Olorum também a tenha em aura e destino profícuo em toda a sua trajetória pelo “Aiyê”, seja ela acadêmica ou em outras. Por sabemo-la modeladora da criatura que ora se vê a velar. Pêsames e nosso profundo constrito consternamento, e que estes se estenda a toda família e amigos, mais uma vez repetimos.
Excelência! Lemos vários de teus livros. Dos quais destacamos é o Genocídio do Negro Brasileiro, onde bebemos da fonte, onde também Sua Excelência desenhou em denúncias, à sua maneira singular, como que o crime “sutil” do branco brasileiro ocorre no nosso cotidiano; e como as esquerdas pérfidas manipularam isso. Abdias não foi somente um negro defendendo suas ideias e origens, incontestavelmente. Foi um verdadeiro “Oluwó” [2], um soba.
Não costumamos lamentar nossos mortos. Mesmo por que a morte, para nós, não significa o desaparecer eterno. Dizemo-nos encontrar em Deus (Olorum). Não. Morte? Isto não existe mais. A morte é apenas um acontecimento, aliás, previsto. Somente não sabemos onde e quando. O que existe de fato é apenas uma passagem para outra esfera, para outra dimensão. Passagem para outro Plano Astral. Para nós, mesmo que africanos de diáspora, ao Sagrado “Orum” [3]. Que tem nove (9) espaços. Por onde são distribuídos os “ara-Orum” [4]. Onde são separados os bons dos piores e dos maus – para aonde será que vão os brancos? Ah! Isso não nos importa. Problema deles. É como diz o ditado de cativeiro, “em briga de brancos não metemos nossa colher”, e acrescento, e nem em seus problemas. Somente esperamos que não seja para lá. Pois não queremos nosso Orum seu Inferno.
De Lá, alguns haverão de voltar. Em outras encarnações. Queira que esta Alma esteja dentre estas... E que venha novamente negro para nos auxiliar nesta imensa, pungente e dura jornada, que por certo nessa ou numa só geração não haveremos de solucionar.
O que solicitamos a “Òrúmilà” [5] é que cuide deste “ara-Orum” e os designíos de que seja novamente “ara-àiyê...” [6] E novamente, que seja negro. Mas, que com a Sua Resplandecente e Magnânima Consciência quiseres aliviar o sofrer do apenado, não o deixe mais ser negro no Brasil. É por demais sofríveis. E ele, cremos, não merecerá mais tal martírio – se teve pecados, nós cremos que já os pagou, por ter sido negro brasileiro.
Lembramo-nos que daqui Vossa Excelência até já fugiu – ah! Essa nós temos certeza de que você ira até gostar! Hum! -, deste Vossa Excelência fugiu por saber o que viria então se auto exilou. Pois sabia o que estava povir num futuro próximo. E, evidentemente, o nosso parco e fraco desempenhar seria inútil. A nossa negra brasileira contribuição contra a bandalheira. Danado! Mas não há de ser nada! Recuperarmo-nos.
Lamentamos que logo agora que a “festa” ira ficar boa! Aqui no “Àiyè”. E Vossa Excelência vem novamente com esta de nos abandonar! E desta vez em definitivo... Pelo menos com esta roupagem. Seria esta também mais uma de suas preconizações? Esperamos que não. Pois a cada dia nos convencemos de que esta luta será por demais fáceis. Se for uma luta, de fato, a do Bem contra o mal, como eles apregoam, assevera e preconiza. Eles de maneira falsa e supérflua. Pérfida ao seu próprio “deus” se de fato creem em sua existência. O que, aliás, é difícil de acreditar; porém, o nosso não. Se for, desta vez, por designo e intercessão de Olorum sabemo-la fácil. E nada nos deterá. Pois senão não haveria Ogum. Axé! Indiscutivelmente a nossa luta... Ah! Ficará mesmo boa! E a vitória mais certa ainda. É como dizia Abraão Lincoln, “pode se enganar um povo durante um determinado período, porém, não o tempo todo”. Eis um axioma.
É! Olorum sabe o que faz! Entretanto, a sua ausência nos fará falta. Nós nunca olvidamos disso, nem de Olorum e nem de ti Abdias. Então sabemo-nos recompensados, e que tu recebas as tuas glórias e graças. O que, entretanto, não nos ressarcirá e nem compensará o desfalque. A luta continua e nós haveremos de vencer. Custe o que custar. Agora em sua honra, homenagem e louvor.
Adeus Mestre Abdias. Mestre de vivência e cultura. Quando expressamos adeus não dizemos o o fim ou jamais... Dizemo-nos se encontrar em Deus (Olorum). E que seus caminhos sejam eternos e floridos. Que sejas acolhido, e com honras, no Sagrado Balé de Oiyá, com a benção de sua, nossa, Mãe Oxum. Ora Yeieó!
Que do reinado de Angola Janga, donde 45.500 Almas, outrora, lançadas ao abismo, lhe assegurem e cubram de Santo Manto e que ao seu trilhar glorioso rumo ao Orum a ti lhe dão louvores.
Perde-se mais um guerreiro, que derramará suas cinzas, por iniciativa própria, às Estepes da Barriga junto aos seus ancestrais sacrificados outrora. Segue-se o designo previsto. Vai-se mais um soldado, porém, a luta continua... Até a vitória completa.
M’berunlo, Tata Abdias do Nascimento!
São Paulo, 25 de maio de 2011.
Axogum de Oiyá
Neninho de Obálúwayié
Coordenador Geral do CRENJA
PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
PELO CESSAR IMEDIATO DO EXTERMÍNIO DA JUVENTUDE E INFÂNCIA NEGRA!
PELO IMEDIATO DESOCUPAR DAS TERRAS HAITIANAS!
CONTRA O DESARMAMENTO DO POVO NEGRO!
CONTRA O INGRESSO AO CONSELHO DE SEGURANÇA PELO BRASIL COM DIREITO A VETO!
PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS!
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