Crenja
CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA[1]
União, Solidariedade, Saber e Luta!
Blog: crenja.blogspot.com
Ao
Comitê Científico Internacional
Projeto da UNESCO<< Rota dos Escravos>>
Luanda (Angola) - África
Caixa Postal 2313
Tel.: + 244 929 79 32 77
A/C. Senhor SIMÃO SOUINDOULA.
Ref:- CONTATO FAZ
Prezados(as) Senhor(es),
Saudações,
É com imenso prazer e exuberante felicidade que vimos a fazer contato com os senhores(as). Pegamos como referência o Senhor Simão Souindoula por tirá-lo como referência no vídeo produzido e divulgado pela TV Record neste “nosso” país.
Somos afrodescendentes e também militantes do movimento negro nacional. Nosso coordenador geral, que abaixo subscreverá este, é um dos fundadores do MNU[2]. Entidade esta que se considera a primeira, de cunho político, em toda a história de luta do negro brasileiro. Por fim, rompido com esta entidade fundou o CRENJA.
Senhores(as), em 1890 – dois (2) anos após a suposta abolição da escravatura neste país -, o então Ministro das Financias, Rui Barbosa, mandou queimar todos os documentos nacional referente ao tráfico de africanos, que aqui adentraram. Tinha é ele, consequentemente, o objetivo óbvio de impedir que os fazendeiros escravistas de futuramente ingressar com ações indenizatórias. Dado que, antes, houve uma acirrada contenda entre a Coroa, os republicanos e estes pela questão de se indenizar ou não os ex-escravos. No entanto, surgiu-nos em cena um mestiço, mulato de nome José do Patrocínio, que tinha politicamente uma postura dúbia. Dizia-se republicano – que, aliás, era um partido clandestino, e porquanto, condenado pela Coroa portuguesa e brasileira, por pretender este a proclamação da república -, no entanto este era frequentador assíduo do palácio real. Dizem-se até que era muito íntima da Princesa Isabel. Esta que após a “abolição” passou a também ostentar o título de “redentora”, sugerindo, de esse azar, a ideia de que fora por sua benevolência que o fato ocorreu. No entanto, nós temos hoje tudo isso desmentido, inclusive a ideia de “abolição de escravatura”, que atualmente chamamo-la simplesmente de engodo. Dado ao fato de que não se concretizou de fato. Porém, o ato do senhor Rui Barbosa findou por matar dois coelhos com uma só cajadada – não sabemos se intencionalmente ou não. Teve também como resultado a eliminação da possibilidade de nós, afrodescendentes, reestabelecermos a nossa árvore genealógica e consequente nossa origem étnica e regional.
Polêmicas à parte, acrescentamos que aqui no Brasil, mormente nas questões que nos envolvem, a nós negros, é sempre assim. E, também em outras matérias de cunho político mais genérico. Nós somos sempre assediados por uma torrente de mentiras e desinformações.
Com o passar dos tempos o negro brasileiro, afrodescendentes, perderam suas memórias histórica. Todavia, isso não foi mera obra do acaso. Houve um redobrado esforço por parte das classes-dominantes neste sentido. Primeiro, nós levamos quinhentos (500) anos para sabermos o nosso real contingente. Hoje se diz que somos 51,3% da população. Entretanto, isso ainda não foi reconhecido ou divulgado oficialmente.
E quanto à questão histórica a nossa ignorância se dá por conta de que desde 1823, data da primeira Constituição, que “escravos e doentes de doenças contagiosas” não podiam frequentar escolas. Posteriormente, em 1856 veio o decreto lei defendendo a mesma tese. Este de número 1331. O fato é que desde imemoriável tempo que a sociedade brasileira, diga-se, branca teme e tenta impedir a qualquer preço que o negro brasileiro tenha cultura e se organize, preferem nos manter na ignorância. Prova disso está no que somente em 1950, noventa e seis (96) anos após a sua promulgação esta lei foi revogada... Após 96 anos! Quase um século. Quando todas as estratégias racistas já estavam consolidadas para exercê-la extraoficialmente. E estas estratégias perduram até os dias atuais. E foram se sofisticando, chegando ao atual requinte.
Nós negros, afrodescendentes, sendo mantidos na ignorância somos vítimas fáceis de seus abusos e dominação. Daí resulta aquelas imagens, que, segundo eles, correram o mundo afora, de bando de “marginais” fugindo de seu habitat, aliás, territórios conquistados por nós, em 1835, data da queda dos Malê, na Bahia, e após, 1870, com o fim da Guerra dos Paraguai. Que fomos mandados com a promessa de alforria àqueles que voltassem com vida. Promessa esta que não foi cumprida. E após fuzilarem parte de nós os remanescentes refugiaram-se nos morros cariocas e algures... Bem, como eles dizem atualmente, “isso é história, coisa do passado...” No entanto, passado este que tem extensão até os dias atuais, em nosso detrimento. Mas o fato é que a nossa presença ainda os incomodam. Ou talvez somente às suas consciências... Se de fato às tiverem.
No entanto, nos anos de 2003, nossa entidade denunciou, por não encontrar respaldo interno, o genocídio do negro brasileiro à ONU[3]... Passaram-se, portanto, oito (8) anos... E nada de concreto porquanto foi resolvido. Soubemos extra oficialmente que já vieram, no mínimo, cinco (5) representantes desta entidade aqui no Brasil. E todos eles asseveraram “genocídio”. No entanto os governos brasileiros têm lá as suas manobras. A última, do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que, aliás, é um racista de carteirinha e também genocida – temos provas -, mandou uma “ministra” tua dita também negra. Na verdade ela é mais uma mulatinha que, para nos enganar, veste-se da roupagem “negra”. Esta chamada Matilde Ribeiro, que ocupava o cargo numa dúbia secretaria, com status de ministério, chamada Secretaria de Promoção e Participação de Integração Racial, de sigla SEPPIR. É assim, para nos enganar vivem criando secretárias, dando estes nomes vagos e colocando “negros” nos cargos de chefia, para dar-nos a impressão de que são dirigidas e preocupadas conosco. No entanto, são meras fachadas, cabides de emprego para mulatada formada – que após a nossa luta, como não havia alternativa, findaram por abrir espaços nas faculdades aos mulatos, e nós nos encontramos fora e com imensas dificuldades em frequentá-las... E não é por falta de intelecto não. Isso nós podemos provar e demonstrar. O fato é que estes “ministérios”, “secretarias” e demais denominações que emprestam o título de negro nada fazem ou pretendem fazer por nós, mormente os pretos, que somos aqueles que Oracy Nogueira classifica como vítimas do Preconceito de Marca. A marca está nos fenótipos africanos daqueles que ainda os carregam acentuados.
O fato é que a ONU ainda não nos deu resposta. E se fizeram contatos, o fizeram com “negros” errados, os remanescentes dos capitães-do-mato, mulatos que outrora nos vigiavam, castigavam e perseguiam. E hoje se dizem também negros e usurpam e ocupam os nossos lugares na impossível “integração”.
A questão de identidade e históricos para nós é fundamental. Haja vista que os brancos brasileiros deturparam toda a nossa origem, visando declaradamente a nossa extinção.
D, Pedro II, quando imperador, em 1882, falou a Gobeneau, “Daqui a 200 ou 300 anos não haverá mais negros no Brasil”, e concluiu, “A miscigenação acabará com eles”. E isso destaca dois aspectos básicos e sérios da questão. Primeira, que a miscigenação não é um ato de amor como eles apregoam e nos querem fazer entender, muito pelo contrário, foi forçada e impingida, portanto, uma estratégia do genocídio programado em 1850 pelas classes-políticas brasileiras, um crime premeditado anos antes, e que ora era ratificada por seu imperador.
Enfim, tudo aqui no Brasil gera em função do extermínio do negro, como dizia o mesmo Rui Barbosa: “Apagar a nódoa do país.”. Mas, na verdade o que eles têm é mesmo medo... Pois eles, sim, têm memória do passado... Este que agora os senhores(as) nos revelam. Nós sabíamos da sua existência, mas não tínhamos provas, portanto, tudo era considerado fruto de nossa imaginação. Agora não! E isso nos força a ir à luta. Retomá-la.
Já há algum tempo apresentamos à USP (Universidade de São Paulo) um projeto de Memorial das Escravaturas Negras nas Américas, pois pretendemos deslindar o nosso passado. Sabemos das pressões que sofreremos por isso. E tão porquanto não tememos ou sequer esmoreceremos... Já estamos acostumados... Desde a nossa origem e princípio desta desdita. Mais uma vez obrigada!
No que diz respeito ao memorial suas participação e contribuição será sempre benéfica, providencial e imprescindível. Pois tudo começou aí... Em África, e há também uma dívida desta para conosco. Não obstante, a luta aqui ainda não terminou. O antigo Novo Mundo envelheceu... E nós pretendemos reeditá-lo.
O recente assédio dos “nossos” governos ao Continente africano não é também por acaso, ou tão somente para se perdoar diante da África. O Brasil nada lhe deve. Muito pelo contrário. Deve sim, mas é a nós, afrodescendente, que ainda somos perseguidos e exterminados, aos mesmos moldes da captura de nossos ancestrais. E é a nós que deverá pagar.
Quanto ao assédio este tem referência explícita na pretensão do Brasil em conquistar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU com direito a veto e, consequentemente, se acautelar de possíveis sanções que poderão advir de nossa campanha contra o genocídio de nosso povo. A África tem peso de decisão na ONU com os seus cinquenta e seis (56) Estados e consequentes votos. Portanto, deflagramos o alerta.
Com as devidas vênias,
No aguardo de breves considerações,
Mais uma vez abrigadas pelas suas atenções.
São Paulo, 19 de maio de 2011.
Neninho de Obálúwayié
Coordenador Geral do CRENJA
[1] Em homenagem ao povo jagas, guerreiros do rei Kiluanje M’Bandi, pai da rainha N’Zinga, que combateu os portugueses no século XVI aí em Angola, e que aqui fundaram o Reino de Angola Janga, maliciosamente denominado “Quilombo dos Palmares”, pelos brancos invasores.
[2] Movimento Negro Unificado.
[3] Organização das Nações Unidas.
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