terça-feira, 16 de novembro de 2010

QUE HORA É ESTA?

CRENJA
CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA
União, Solidariedade, Saber e Luta!

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A VIDA NÃO AGRACIA OPÇÕES

Wilsão era um presidiário. Poderia ter qualquer outro nome ou apelido. Ele era uma pessoa comum que por motivos diversos caiu naquele mundo: o mundo do cárcere; que outros chamam de submundo. Wilsão já estava tirando “alguns dias”, ou seja, alguns anos. Fora condenado por roubo. Todavia, ele parecia uma pessoa pacata.
Durante os dias, no recreio, Wilsão, quase sempre era chamado para atuar como juiz de jogo de futebol. Era respeitado.
Para se ser “juiz”, mesmo que de futebol, na cadeia não é coisa para qualquer um não. A coisa é louca. Tínhamos a experiência daquele que apitou um pênalti contra um time de “bandido” – imagine, bandido, isso é somente cá fora, pois lá dentro são apenas cidadãos em recuperação (?). Creio não precisar dizer que este arrumou para a cabeça e pro corpo todo, senão para a própria vida. Futebol nos presídios é algo de muita estima, de verdadeira devoção, mais até mesmo que aqui fora... Pois lá, é a única coisa que o presidiário tem como lazer. Enquanto uns jogam outros assistem. E que joguem direito. Pois se o jogo estiver de veras ruim são expulsos os dois times, pela torcida. É! Lá não tem alambrados, e muito menos pelotão de choque para livrar a cara de juiz de futebol, que, por solidariedade e respeito nunca é chamado de “ladrão”.
O juiz em questão aplicou uma penalidade máxima em cima do time de maior torcida, não deu outra. Logo alguém pulou e pegou-lhe pelo cordão do apito rente a garganta e começou a gritar-lhe: “Tire o apito. Tire o apito...” E ele tentava, até desesperadamente, olhar para onde o oponente estava-lhe segurando, para sugerir a impossibilidade. Mas não teve jeito ou êxito, teve mesmo que arrebentar o cordão para escapar da ira do torcedor revoltado.
Como eu disse, o Wilsão era respeitado. Primeiro que não tinha B.O. Ou seja, não tinha mancado registrada em seu currículo... E segundo que ele não ia marcar uma daquela, assim como o juiz citado anteriormente. O Wilsão estava para ir embora da cadeia. Não estava condenado há muitos anos. Precisava apenas ficar na manha e esperar; mas claro que lá só o que não se pode é relaxar. A disciplina é severa. E os dias iam se passando...
Um certo destes chegou – aliás, como chegava todos os dias, no final da tarde - no Carandiru, uma nova leva de presos. Uns primários e outros reincidentes. Os primários iam para o Pavilhão Nove, e os reincidentes para o Oito. O Wilsão estava no Oito.
Um dia ao sair de seu xadrez deparou-se com um velho conhecido teu, morador do mesmo bairro. O Wilsão tinha desavença com este teu recém reencontrado. E este o interpelou: “É, ocê me deve”. Wilsão tentou argumentar: “Olha, aquilo aconteceu na rua. E bronca de rua se cobra e resolve na rua. Eu estou para ir embora, e ocê também não ficará muito tempo. Portanto, vamos deixar para resolver na rua”. O desafeto nada falou. Apenas virou a costa e foi embora. Wilsão se tranqüilizou.
À noite, depois da tranca, é que começam os buxixos. E o rapaz recém chegado contou na sua cela o episódio. Não o recente, mas sim o “da rua”. E todos, no xadrez ficaram indignados. O caso era o seguinte, o Wilsão havia tomado um revólver daquele, e este, segundo ele, não havia o encontrado na rua para o necessário acerto de contas... E foram se encontrar novamente somente ali. A regra da cadeia é clara, “treta de rua é treta de rua, e somente se resolve na rua, isso é, se não for muito grave”. Aquela, portanto, era treta de rua. Mas o pessoal de seu xadrez não se conformou, tudo acendedor, e atiçou grandão a morte do Wilsão. Durante a noite, enquanto que este não estava sabendo o que estava sendo tramado contra si.
De manhã, ao sair de sua cela como de costume Wilsão deparou com o indivíduo com uma faca na mão e sorriso de vingança nos lábios. Wilsão tentou freneticamente argumentar, mas já era tarde demais, ele foi esfaqueado por umas quarenta vezes (na cadeia não se morre de um só golpe, isto caracteriza a fraqueza do executor e seu pouco empenho e despreparo, tem que ser pra fazer mídia, ter performance). E Wilsão deixou seu corpanzil estirado na laje fria da galeria da masmorra.
O corpo do Wilsão ficou durante o dia todo até a manhã seguinte em uma sala, solitário, no Pavilhão Cinco.
O Wilsão tinha um irmão. Este já estava tirando algo em torno de quinze (15) anos de pena. Estava aguardando a sua liberdade condicional. Esta que só a recebe quem tem “bom comportamento”. Ele já estava até mesmo no Pavilhão Dois e trabalhando na Portaria. Estava somente aguardando a documentação, o alvará, para ir embora... Foi quando recebeu a notícia: “Mataram teu irmão, lá no Fundão”. O irmão de Wilsão – que chamemos-no de Carlos -, nem sequer reagiu. Nada disse. Simplesmente se calou.
No mesmo dia pediu dispensa do setor ao qual estava lotado e pediu para voltar pro Fundão. Foi aconselhado por alguns funcionários que lhe tinham estima. Mas mesmo estes sabiam que não havia alternativa. É que entre os presos ainda prevalece o sentimento, hoje defasado aqui fora, de honra. Imaginem, eles guardam suas honras, ainda, no vão das pernas de suas mulheres! Parece exagero, mas é assim que funciona.
Carlos foi transferido a noite, e nem esperou o outro dia clarear intensamente. De manhã cedinho estava fora da cela, com apoio tático e logístico é claro, e emburacou para a cela do algoz de seu irmão. Sabia que lá ele não estaria sozinho, e que todos que lá estavam envolvidos eram cúmplices, portanto também culpados.
Ao chegar na porta da cela junto aos seus companheiros deu o ultimato: “Quem tiver faca que as tire, pois vão morrer do mesmo jeito”. Enquanto isso os demais percorriam um molho de chaves a procura de uma mixa que “cantasse”. E cantou, e o Carlos e demais caíram pra dentro. No final da contenda havia sangue até no teto da cela, e todos os habitantes desta estavam mortos, pois assim como aqui fora, as leis têm que serem cumpridas. Só que lá elas o são. Mas aqui depende das vítimas... E ficamos sempre deixando de saber quem é ou são os verdadeiros culpados.
E nosso “crime” foi o de apenas nascer negro. Mesmo sem culpa a sociedade não nos “perdoou”.

São Paulo, 16 de novembro de 2.010.

Neninho de Obalúwáiyé
Coordenador Geral do CRENJA

PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS!

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