CRENJA - CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA
Em 1993, o CRENJA efetuou nos dias 8, 15 e 29, na Câmara Municipal de São Paulo, um seminário intitulado I SEMINÁRIO SOBRE O GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL. O seminário, nos seus três dias teve uma presença de mais de 100 pessoas, e houve um enorme interesse ao tema por parte da população negra brasileira, mormente a paulista e a paulistana. O mesmo foi gravado e transcrito pela própria Câmara Municipal, do qual o dispomos do original, e que pretendemos, assim que possível, publicá-lo.
O resultado do seminário não podemos dizer que foi totalmente satisfatório, pois houve a intervenção negativa do próprio “movimento negro nacional” – ressalva: somente a UNEGRO paulistana nos apoiou efetivamente -, que insensível à realidade da população negra saiu à rua para dizer às pessoas que não comparecesse, sob a argumentação de que “nosso coordenador geral estaria sendo procurado pela polícia” e que estas, caso comparecessem, poderiam, estas, ser envolvidas – nós não vamos nos justificar a respeito desta aberração! Afinal, como dizem os brancos: “o ônus da prova é de quem acusa” -, além de que, inexplicavelmente, acabamos por nos tornar também “inoportunos” a gregos e troianos, ao partido e também para o parlamentar que nos concedeu o espaço. Foi-nos traumática esse desfecho, pelo fato de que a nossa intenção era a de apenas deixar claro e dar assistência a uma população esta que entrou à sua revelia nessa história estúpida de “desenvolvimento”, “progresso” e “solidariedade” a qualquer esforço e custo, enunciado pela “civilização ocidental”. Esta que se desenvolveu às custas de outros povos e civilizações. Este último, o parlamentar, que se disse também “ofendido”, é mulato, que por puro oportunismo eleitoreiro – como tantos outros – se diz também negro. Pela mais impura das conveniências. Devemos ressaltar, todavia, que o sucesso do seminário devemos ao radialista Moisés da Rocha, este que em seu programa diário, O Samba Pede Passagem, durante todo o período anunciou o evento, e com ênfase. Ele lia o nosso anúncio todos os dias na abertura de seu programa... E o “movimento negro nacional” não reconhece também isso.
Tão logo tivemos a informação saímos a campo. Naquele momento, aqui no Brasil, estávamos às vésperas de um Plebiscito que definiria o sistema e regime de governos. E nós entramos com uma petição solicitando a inserção da Coroa de Angola Janga (Palmares, para os leigos) no processo junto ao Congresso Nacional. Com o intuito, explícito, de evitarmos a consumação do delito, diga-se, hediondo e condenado legalmente por legislações tanto internacional quanto nacional. E devemos ressaltar que fomos literalmente boicotados e rechaçados em nossa pretensão e perseguidos. Isso, como que nós que fôssemos os criminosos. E quanto ao processo político nós asseveramos, com toda a convicção, de que todos os governos brasileiros a partir de 1994 até os dias atuais, foram e são espúrios. Porque havia um Mandado de Segurança impetrado a nosso favor a ser julgado, no entanto, o mesmo foi arquivado, ignorado e preterido, E este episódio desencadeou uma reação indesejável e igualmente criminosa, por que nosso coordenador passou a ser perseguido deliberadamente, agredido e violentado física e em seus direitos civis e constitucionais. Física e moralmente, por policiais, pela sociedade e o pelo próprio “movimento negro”, este que aderiu às difamações. Estes que tentaram exaustiva e arbitrariamente lhe colocar na prisão ou à morte e o estigmatizaram durante todos estes demais anos.
Desde o princípio nós sabíamos que aquela ação delituosa, diga-se criminosa, era em represália à sua “ousadia” em denunciar um crime contra o seu povo, e os inimigos usaram de todos os meios, de todo esforço em colocar nosso coordenador na condição de réu e criminoso. E com o intuito óbvio de desmoralizá-lo. Houve também inúmeras outras agressões repressivas durante os mais de quinze (15) anos. E também - que me perdoem a ênfase -, inexplicavelmente, houve uma farta colaboração e participação do “movimento negro nacional” no mesmo sentido de eliminá-lo. Sobretudo do MNU (Movimento Negro Unificado). Este “movimento” que se diz defensor dos direitos, interesses e defesa dos interesses do povo negro brasileiro, mas que na verdade está, sim, a serviço da repressão, da miscigenação e do capital, em detrimento aos direitos dos negros. E, também paradoxalmente, este permanece com os mesmo discursos anacrônicos, demagógicos e cínicos de outrora. Isto em pleno século XXI, explorando a ignorância da população negra brasileira, que também foi posta nesta condição à sua revelia. E até hoje, ainda que se negue acintosamente em reconhecer e assumir a sua perfídia. Sua motivação? Tirar vantagens pessoais da desgraça da maioria. Ninguém está discutindo se eles são negros ou não... Mas que se são traidores safados? Ah! Isso são.
Entretanto, o cúmulo do disparate foi quando, após sete (7) dias de sua prisão, e naquele momento o nosso coordenador foi libertado – e isto que não lhe podia ocorrer, devido ao fato de este já ter tido antes problemas com a tal “justiça”. E ao sair se deparou com uma cena inusitada e deprimente, e no mínimo desconcertante e cínica, ao ver sobre um carro de som, um ato-público que foi preparado por aqueles mesmos que propiciaram e participaram de sua prisão – pois foi cilada, magistralmente organizada pelo mundo branco brasileiro, e com franca e pronta “colaboração” destes. Eles colaboraram e participaram ativamente com a polícia para a sua prisão, e no pós com sua estigmatização, pela pecha de “bandido”, com o intuito explícito de calá-lo. E queriam, evidentemente, somente se livrar dele, todos, inclusive e exclusivamente o “movimento negro nacional”. Que na verdade não passa de um blefe. E que teme ser desmascarado por ele. Sendo ele um de seus fundadores. Aquilo fora demais! E ficava provado cabalmente que a farsa da luta racial brasileira não é reconhecida por seus “defensores”, e o “preconceito” não praticado somente pelo mundo branco. O negro brasileiro – inconscientemente ou não - também é um de seus protagonistas e franco colaborador para sua perpetuação. Não digamos que o racismo, pois segundo o dicionário: “racista é aquele que diz que sua raça é melhor e superior que a de outrem”; porquanto, um negro, mesmo que seja mulato, não pode dizer que sua raça é melhor ou superior, pois ele não tem raça, ou pior, tem duas... E para ser gente tem que escolher uma delas, e não hipocritamente. O problema de ficar encima do muro é o de que poderá ser alvejado por ambos o lado. Fato este que também deixa claro que a “política racial brasileira” não passa de clara camuflagem para um crime perversamente doloso e hediondo, por não dar as mínimas chances às suas vítimas de se defenderem. Por quê? Ah! Pois há a evidente intenção clara de matar.
Obviamente que os intelectuais brancos, isto desde a década de 30 do século passado, esforçam-se muito em tentar camuflar e dissimular seus crimes e barbáries. Fazendo uso de seu “linguajar culto” e sua pseudo-intelectualidade tentam camuflar estas realidades, digam-se, sórdidas, flagrantes e criminosas. E, evidentemente, para nós trágicas. Que de princípio tentam, e se esforçam muito, em negar a nossa ascendência africana e à nossa ancestralidade, num processo sórdido de genocídio cultural.
A intenção de se livrar dos afros-descendentes é nitidamente criminosa. Mas o mais importante é sabermos o porquê desta intenção e empenho. E não será necessário, de nossa parte, muito esforço intelectual entendê-la. Basta lembrarmos que há uma dívida moral e econômica enorme para conosco, de trezentos e setenta (370) anos de trabalho, e que não querem, ora, nos pagar. E também é conveniente nos lembrarmos de que os ataques e nossa luta de defesa não começaram em 1888, e sim há dois mil e quinhentos (2.500) anos atrás, quando os gregos e romanos começam a invadir o Norte da África e a fazer prisioneiros, no século VI antes do Cristo.[6], e vem se desenrolando durante milênios afora.
Dessa sorte conclamamos todos os reais e verdadeiros militantes negros, e sempre lembrando que nós temos somente nós por nós mesmos, para, primeiro, criarmos um Memorial da Escravatura Negra nas Américas, para que possamos melhor conhecer a verdadeira História. E, por conseguinte, formarmos uma Legião, esta que terá a incumbência nos defender e, por extensão, defendermos o que resta de nosso combalido povo – da qual a classe-média não faz parte, pois pertence às “classes dominantes”, e que isto fique claro. Este povo, ainda, desamparado, desvalido e indefeso.
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