domingo, 28 de novembro de 2010

MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS

CRENJA
CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA
União, Solidariedade, Saber e Luta!

Blog: crenja.blogspot.com
PROJETO PHOENIX
MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS

No dia 26 último, deste mês de novembro, estivemos juntos, eu e o Ailton Azevedo, atualmente assessor do deputado estadual José Zito (PT), com o Dr. Dennis de Oliveira, na condição de coordenador do NEINB (Núcleo de Estudos Interdisciplinar do Negro Brasileiro), na USP (Universidade São Paulo). O objetivo da reunião foi a de firmar contrato de parceria junto a esta com intuito de criarmos um memorial voltado à história do negro, embora não contraditante, não somente o brasileiro nacional, mas sim de toda as Américas (do Sul, Central e do Norte).
A proposta de criar a memorial data, ainda, da década de 70, quando reiniciamos os esforços de conscientização e organização do povo negro brasileiro, que a partir da “abolição da escravatura”, donde este foi posto fora do processo produtivo, quando sua atividade foi trocada pela mão-de-obra livre e européia. E foi quando também o negro, mormente o brasileiro, foi expurgado do jugo direto para a indigência. Sem pecúlio ou qualquer outro tipo de poupança ou ressarcimento o negro se viu às voltas com a sua marginalidade. Donde poucos conseguiram sair, mas a maioria ainda padece de carências e estigmatização, e sem o menor ou qualquer amparo do Estado. No entanto, na época a nossa proposta foi preterida, porquanto, estamos reeditando-a.
Tivemos a preocupação de superar o lugar-comum que o movimento negro brasileiro chafurdou, mesmo que involuntariamente, na questão da discriminação racial. Esta que, com o seu uso intenso, findou por ser esvaziada e se arrasta há mais de 30 anos sem quaisquer perspectivas de solução. O memorial não pretende, e nem podia, se pautar por este caminho. Não por acharmos de pouca importância, muito pelo contrário, mas acontece que como afirmávamos no passado nenhum povo consegue se organizar sem uma história, passada e definida. É muito vago se dizer que demos um “grande contribuição” ou que “o negro brasileiro tem história”. História todo mundo a tem, seja ela boa ou má, bela ou feia. O nosso constrangimento começa quando somos incitados a contá-la. E, ou por vergonha ou por desconhecê-la mesmo nós sempre nos omitimos.
Oficialmente, nós trabalhamos 370 anos em regime de escravidão. Fizemos não somente a realização econômica da burguesia colonial nacional, muito pelo contrário, também fizemos a fortuna da antiga Metrópole, Portugal, esta que se estendeu a toda Europa, propiciando, como disse Karl Marx: “a escravidão foi fundamental para a acumulação de capital”, que por sua vez proporcionou a Revolução Industrial. Esta que colocou também a Europa na vanguarda imperialista. Quanto a nós outros ficamos apenas com o escárnio da sociedade, e execrados.
De princípio, nós pensamos em tratar, no referido memorial, enfocar a população negra nacional. Porém, esbarramos em sérios empecilhos. Primeiro que, até por força de lei, o negro brasileiro foi mantido na ignorância cultural e histórica, até mesmo de nossa origem. O Continente africano, nos dizeres dos dominantes, não passava de um local inóspito e rude, e sem quaisquer resquícios de cultura e civilidade. Esta estória nos foi contada por mais de 100 anos. Só recentemente é que começamos a conhecê-la mais amiúdo. Não importando a nossos algozes sua história ser muito rica, em sendo a África o berço da humanidade, até então provado. Esta história somente agora começa a nos ser contada, na versão e visão de nossos opressores contemporâneos. Estes que sempre versionam visando seus próprios e exclusivos interesses. Esta história tem que ser recontada. E a história do negro brasileiro reescrita. Agora, sob a nossa óptica. Não se esquecendo, todavia, de que devamos ser ressarcidos de nossos desatinos, pois entramos nesta a nossa revelia.
No princípio do movimento negro, aqui no Brasil, assim como em todas as suas iniciativas análogas, nós fomos impelidos à busca de nosso panteão de heróis. Todos os povos deste Planeta se alicerçam em mitos... E a nós somente sobrou Zumbi de Angola Janga (Palmares). No esforço tivemos que invocarmos alguns outros que nem sequer se esmeraram, muito pelo contrário, tinham um interesse maior, sempre, na proclamação da república. Joaquim Nabuco, por exemplo, não escondia, deixando claro em seus discursos em plenário: “Eu não defendo a abolição por causa do negro. A minha preocupação é a imagem do país no Exterior”. José do Patrocínio, por sua vez tinha um discurso parecido, tanto que ao participar da contenda quando se pagaria ou não indenização aos escravos foi eloquente: “Aos negros a liberdade por si só é suficiente”, e centrou legal em pró da Monarquia e escravistas... em detrimento ao negro brasileiro. Sendo, portanto, este, um traidor, e não herói. Economizando, o único desta fase “abolicionista” digno de nossas notas e aplausos, Luiz Gama.
Luiz Gama, filho de escrava com fidalgo português, ele foi vendido e alforriado. Aprendeu a ler e escrever com um filho de seu antigo escravista, através da Bíblia. No autodidatismo tornou-se advogado. Defendeu nesta condição negros e brancos, se consagrando. Em toda a sua carreira defendeu e libertou do cativeiro algo em torno de 500 “escravos”.
Acontece que com estes fatos a história do negro, em contraste com a deste país, é pífia. Mesmo imaginando que ocorreram ações de um “exército” de anônimos. Levando-se em consideração que a história oficial nunca se importou em registrar a história de dominados. Aliás, em momento algum estas foram registradas: pois, os derrotados nunca mereceram, por parte da História, nenhuma consideração. E o negro brasileiro tem esta dívida e desvantagem. Sim, o negro brasileiro tem história, porém, esta de derrotado. E derrotado nunca foi visto com bons olhos – nem dos seus - como herói. E nem tem a sua história contada e registrada nos anais.
Uma de nossas deficiências era a de que, no decorrer de toda a história, seríamos minoria numérica. E hoje já nos abemos maioria... E o que isso muda? Nada! Continuamos dominados e escorraçados físicos e moralmente. Não obstante, na há a menor perspectiva de recuperação. O movimento negro brasileiro blefa quando vende esperanças. Os morros cariocas foram ocupados, sim, há alguns anos atrás, em seguida à “abolição”. Por não termos para onde ir. Foram escolhidos locais ermos para nosso habitat, e hoje estamos novamente sendo escorraçados destes. Novamente sendo postos no olho da rua. Foi tudo armação: primeiro vieram às drogas, depois as armas e agora as Forças Armadas e demais aparato repressivo. Querem acabar logo a guerra. Guerra que começou, no que diz respeito a nós, no princípio do século XVI. E nestes nós não ganhamos, até agora, nenhuma só batalha. Porquanto, à luta! Não podemos esmorecer.
Outro empecilho é o de que foram queimados todos os documentos referentes ao tráfico de africano para o Brasil. Portanto isto dificulta a nossa identificação. Ledo engano! Pois estes documentos existem cópias na Europa e na própria África. Bastando, apenas e tão somente, ir buscá-los. Se este é um problema, com o memorial será fácil resolvê-lo.
Outro engano é pensar que a situação vivida pelo negro brasileiro é única. Não há diferença entre nosso dilema e os dos demais afros-descendentes da diáspora. Assim como podemos nos exemplar na situação do Haiti. Esta que também nos tentam esconder.
São Paulo, 28 de novembro de 2010.

Neninho de Obalúwáiyé
Coordenador Geral do CRENJA

PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS! 

PODER É QUERER

Manifesto: Consciência Negra Rumo ao Poder* 

Roque Assunção da Cruz (Roque Tarugo)
Bacharel em Direito, Filosofia, Teologia, Especialização em Economia do Trabalho, e Ciências Políticas, Advogado, Doutorando em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Del Museo Social Argentino. E-mail: assunovida@hotmail.com ,assunovida33@yahoo.com.br,rtarugo@bol.com.br http://www.assunovidaconsultoria.blogspot.com

Por: Roque Assunção da Cruz (Roque Tarugo) - 24/11/2010
Raça negra                                                                                     
Cantar-te, ó negro
Pele linda
Raça de cor
Unir! Mobilizar, lutar!
Superar a opressão
É a suprema aspiração
De todo homem livre
Preso me deu consciência
Da liberdade.
Silenciado,
Você me ensinou
A falar
Não há caminhada fácil,
Para a liberdade.
A não ser lutar,
Contra a desigualdade,
A discriminação e a opressão
Na busca de um novo horizonte
Construir o socialismo
Negro camarada irmão.

A III Conferência Mundial Contra o Racismo Discriminação Racial Xenofobia e Intolerância Correlatas, que aconteceu em 2001, na África do Sul cidade de Durban, aprovado por mais de 190 países orienta:

“...Lembrar os crimes do passado e contar a verdade sobre a história são elementos essenciais para reconciliação e criação de um sociedade baseada na justiça, na igualdade e na solidariedade...”

Assim, a III Conferência Mundial Contra o Racismo, discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlatas, neste ano de 2010 completou nove anos. E nós negros do Brasil precisamos organizar uma militância de mulheres, homens, jovens, aposentados, comunitária, estudantil, partidária e sindical que tenha por objetivo o horizonte do poder político de eleger um negro ou negra a Presidência da República Federativa do Brasil, nos pilares da liberdade, igualdade, e fraternidade.

Deve ser esse o pensamento do povo negro brasileiro que congregam nas diversas matrizes religiosas, a unidade como chave da vitória. A unidade de ação rebelando-se, para conquistar a verdadeira abolição política de homens e mulheres livres produtores de riquezas nesse país da desigualdade racial.

E para podermos resgatar essa divida do Estado nação e avançar para a verdadeira abolição precisamos organizar uma pauta de interesses que aglutine a todos e todas na luta contra o racismo, o machismo, o xenofobismo, a intolerância religiosa, convocando um grande Congresso Nacional do povo negro brasileiro para novembro de 2011 que tenha como bandeira central as eleições presidenciais de 2014. 

Na realização desse Congresso podemos propalar que estaremos efetivando a Carta Magna Brasileira em seus Princípios e seus Direitos Fundamentais.

Não nos bastam as pequenas conquistas políticas e jurídicas não podemos parar na Lei Federal nº 12.288 de 20 de julho de 2010, Estatuto da Igualdade Racial, que define como dever do Estado e da sociedade garantir a igualdade de oportunidades, reconhecendo a todo cidadão brasileiro, independentemente da etnia ou da cor da pele, o direito à participação na sociedade, especialmente nas atividades políticas, econômicas, empresariais, educacionais, culturais e esportivas, defendendo sua dignidade e seus valores religiosos e culturais. 

Os Direitos Humanos nasceram desse reconhecimento do valor e da dignidade da pessoa humana. Essa dignidade de todas as pessoas significa que o ser humano vale pelo que é, por ser humano, por ser pessoa. Esse valor é inegociável. Não pode ser comprado ou vendido. Todo ser humano merece respeito. Tem DIREITOS HUMANOS!!!

Todo homem – e toda mulher! – tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.

Independentemente do sexo, da cor, da idade, do credo, do país, do grau de escolaridade ou até de grande cidadania, santos ou criminosos, nenéns ou vovozinhos, sendo gente – apenas gente, todo homem e toda mulher são pessoas.

E devem ser reconhecidos como tais na vida de casa e da rua, na família e na sociedade, no trabalho e no lazer, na política e na religião. Também nas fabricas, nos canaviais e nas carvoarias. Também nas penitenciárias e sob os viadutos. Diante dos olhos dos transeuntes e ante as câmeras de televisão. Em todos os lugares, pois, deste redondo planeta azul que é a Terra.

(...) – Não é um cara; é uma pessoa. Não é uma vagabunda; é uma pessoa. Não é um estrangeiro; é uma pessoa; não é um mendigo (para brincar de fogo com ele!); é uma pessoa. (Uma pessoa, senhora juíza!)

Por isso, se faz necessário efetivar-se além das normas constitucionais relativas aos princípios fundamentais. O Estatuto da Igualdade Racial que adota como diretriz político-jurídica a inclusão das vítimas de desigualdade étnico-racial, a valorização da igualdade étnica e o fortalecimento da identidade nacional brasileira. 

E a luta pelo poder político de fato com a eleição de uma liderança negra para a presidência da República fechará um ciclo de desigualdade racial, da exploração, e opressão do povo negro e pobre desse país. 

Todos os negros e não negros que abominam o racismo e querem construir a verdadeira democracia de raça e classe devem se empenhar nesse grande debate de construção do Congresso Nacional do povo negro pela Democracia e o Poder Político rumo às eleições Presidencial de 2014.

Elegendo o Presidente ou a Presidenta da República Federativa do Brasil, é realizarmos o grande sonho do maior líder negro das Américas ZUMBI DOS PALMARES. A verdadeira sociedade SOCIALISTA!

Igualdade, canto do povo negro.
Igualdade, igualdade doutor,
Igualdade o negro sempre lutou.
Enfrentando a intolerância
O racismo e a opressão
Na luta por igualdade
Construindo a nação.
O negro não, mas, escravo
Com seu canto varonil
O negro é liberdade
Cantando o Brasil.
Oh! Oh! Igualdade, o negro lutou
Igualdade o povo negro buscou
Igualdade o seu canto ecoou.
Reafirmando os seus direitos de cidadania
Princípios de igualdade
Na Carta Magna Irmão,
Todos por igualdade
O Brasil é uma grande nação.
Racismo e intolerância
Não tem mais espaço não
O Estatuto da Igualdade não é o fim
É o caminho da não discriminação!

Salvador, Bahia, Brasil, 17 de Novembro de 2010.

*O título original do artigo é "Manifesto: Consciência Negra Rumo ao Poder Político no Brasil".

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

CREPÚSCULO DE UMA CIVILIZAÇÃO

CRENJA
CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA
União, Solidariedade, Saber e Luta!

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O MÁRTIR DE GÓLGOTA E MUNDO CÃO

A imagem que nós formamos, enquanto criança, deste mundo é a de deslumbramento. Neste momento não se está preocupado com detalhes como raça, cor da pele, origem étnica ou classe social: “Aqui no Planeta Terra todos são iguais”, esta é a primeira informação que se recebe. Primeiro pelos próprios pais. Informação esta que, se já tivéssemos desenvolvido, os nossos sentidos por certo perceberiam que estes não se expressavam com muita convicção. No entanto, somos, nesta idade, traídos por nossa inexperiência.
O deslumbramento se estende ao bairro onde se mora, primeiro, depois, gradativamente, se vão expandindo os nossos horizontes de pesquisa... Todavia, tudo continua fantástico: o Sol é belo e aconchegante; as árvores nos dão sombra e frutos; a chuva nos auxilia na consecução de alimentos; o vento nos limpa o ar, os animais, aqueles que não comemos, nos fazem companhias; e os pássaros nos embevecem com seus bailados acrobáticos aéreos e seu doce e suave cantar. Temos a impressão, nos primeiros momentos, que acabamos de adentrar num fabuloso paraíso. E este devaneio se estende até a nossa adolescência. É quando nós começamos a ter uma percepção maior de nossas experiências.
É claro que esta impressão varia de pessoa para pessoa. Neste período, apesar de sermos também informados, ainda não definimos cabalmente o que significa se ser rico ou pobre. “Somos todos iguais”, isto ainda o mundo nos assevera... Mas nesta faixa etária já começamos a perceber algumas diferenciações e que há algo de errado: uns vivem muito bem e outros muito mal. E a religião finda por nos definir estas condições: “É que uns foram bons em encarnações passadas e, porquanto, são recompensados nesta”, o que nos incute a idéia e o sentimento de pecado... Mais tarde esta mesma Igreja nega-nos a existência de alma. E inicia-se então toda a nossa total confusão. Que se bem tratada leva-nos a grandes conclusões, mas se não o for por certo chafurdamos num lodaçal tenebroso de alucinações, passamos à condição de mortos-vivos e instrumentos da vontade alheia, e sem direito a personalidade própria. Olhamos à nossa volta e percebemos que todos, com exceção de apenas alguns, convivem com o mesmo drama: o de sobreviver, apenas e tão somente. O mundo já não é mais tão aprazível assim... e as diferenciações começam a se configurar. E nossa confusão nos leva, invariavelmente, para o balcão de qualquer botequim. E lá entorpecemos-na de volatilidade etílica, ou outros artifícios psicodélicos mais fortes. E todos dizem: “Isto não é vida”. Mas, afinal, o que vem a ser vida, senão a ante-sala da morte. Esta que todos nós rejeitamos, no entanto, segue-nos, e de bem perto, por toda a nossa trajetória existencial.
A escola começa a nos dar os primeiros esclarecimentos, talvez pistas: “a História é muito importante”, dizem os nossos mestres. E nos contam uma estonteante história de aventuras, heroísmo e altivez de um povo que deixando o seu território natal, sua pátria, ou seu continente, e “se aventura Mar afora, no afã de” salvar a humanidade “de um perigo iminente proveniente do seu próprio atraso tecnológico e científico, em comparação ao seu. E não há como contestá-lo. Não por evidências que apresentam, mas sim por causa de suas armas, e somente por elas, somos” convencidos “, aliadas à sua perversidade latente”.
Depois vieram suas leis, suas justiça, seus costumes e sua “fé”. Tudo num pacote só, que nos inibe quaisquer contestações. É a chegada da voraz Civilização Judaico-Cristã Ocidental.
Contar a história toda desta “civilização” me parece um trabalho enfadonho e até impossível neste trabalho, porquanto, resumamos:
Tudo começa numa região inóspita do Oriente Médio, na Palestina, mais precisamente em Belém. Onde nasce uma criança em condições normais. Esta criança cresce e some. E somente vai aparecer para a História 27 anos depois. Já culto e militante.
A Palestina, nestes tempos, estava ocupada pelo Império Romano. A Palestina era, neste mesmo tempo, um território judeu, um dos povos semitas que habitavam aquela região. Como todo povo “ocupado”, assim como temos o Haiti atualmente, não se conforma com a condição imposta. Pois a Liberdade, mesmo que condicionada por leis, é a meta de todos os seres humanos, independente de classificação social, cultural ou étnica. Jesus foi um militante zelote.
Zelote foi um partido político clandestino, de judeus, que lutavam contra a ocupação romana. Partido este do qual fazia parte também Judas Escariote e Barrabás. Jesus era aquilo que atualmente podemos chamar de “aglutinador”, fora treinado para tal, por isso as suas evasivas quando questionado se era ou não Filho de Deus (para eles Jeová ou Jafé). Ele, usando de parábolas não respondia, não no sentido que seus inquisidores almejavam, queriam que dissesse que o era, apenas para execrá-lo e condenar. Apenas deixava claro que todos o eram. Ele apenas era especial, pois tinha o poder da fala, a retórica. Mas mesmo assim não escapou da sentença dos opressores de seu povo, que se preveniam contra o surgimento de um descendente do Rei Davi, o Patriarca daquele povo oprimido. Havia a predição de que ele surgiria para salvar seu povo.
Após a morte de Jesus, 300 anos após, ainda circulava a história do mártir – assim como atualmente temos de Zumbi – e o povo judeu se organizava encima de suas idéias e sacrifício.
Os romanos, personalizados pela autoridade de Constantino, estes que já haviam até mesmo roubado a “religião” dos gregos, e seguindo as instruções de Paulo de Tarso, o grego, que posteriormente também se tornou apóstolo, criou uma nova fé. A do “Filho de Deus” que veio a Terra para ser sacrificado e, assim, salvar todos os homens – só não explicou do que. Também, naquela época, há 2.000 anos atrás, não eram necessários muitos argumentos, e muitos menos motivos, estavam em plena Idade Antiga. O fato concreto é que, após “convertido” a população ocidental, está “fé” se espalhou mundo afora pregando a “Grande Nova”. E a pilhar, matar e escravizar aquele que ele definiu como “mundo bárbaro”. Ou seja, o restante do Planeta.
Já no século XVIII aconteceu na Europa aquilo que chamam de “Revolução Industrial”. Que de fato revolucionou a produção material e transformou o sistema de capitais. E se regozijaram com isso.
O mais intrigante desta história toda é de não sabermos até hoje como um povo “tão inteligente” não previu as consequências deste seu ato e pretensão. Não podia! Pois estava preocupado demais apenas com seus lucros e realizações. Aqueles mesmos que o seu “Deus” condenava. E hoje temos as consequências.
Neste momento fica difícil deixar de mencionar um outro personagem bíblico, o Lucas. Também grego, era médico, e também, assim como Paulo de Tarso, não conviveu com Jesus, o Cristo.
Lucas predisse uma máxima: “os primeiros sintomas da decadência de uma civilização é a quebra de seus padrões morais”, obvio que estava se referindo ao Império Romano, mas, como todas as máximas, esta serve para todas e quaisquer épocas. Assim como podemos constatar no presente.
Nem mesmo o “profeta” economista Karl Marx – creio que assim posso chamá-lo por suas previsões – não se preocupou com os efeitos deste evento. Somente, também, se preocupou com a parte dos lucros. Este previa uma melhor distribuição, mas somente para eles, pois dizia ser a escravidão “um mal necessário”. Por que ela – a nossa escravização – foi o lastro financeiro de suas empreitadas.
Hoje convivemos com seus catastróficos resultados. Os lucros, como Marx previu, foram para nas mãos de uns sós poucos. Os demais ficam com seus resultados nefastos e funestos: o Desastre Ecológico e o prenúncio do fim da vida no Planeta no prazo, no máximo, de 50 anos. Que eles dizem estar procurando solução. E nós? Temos que ficar esperando? Bem, é um tanto quanto arriscado, pois se eles falharem não haverá segunda chance. Isso sem contarmos que os mais renomados cientistas do Planeta já asseveraram que o processo é: inversível.
“Dois terços da população mundial vai pro saco”, esses mesmos que comem hoje alguma coisa e não sabe quando e como farão novamente uma outra “refeição”... Isso com toda a riqueza gerada e “disposta” ao mundo contemporâneo. Esta fortuna está apenas nas mãos de alguns. Estes que o próprio Marx assevera que “um dia a massa explorada e ensandecida se organizará e varrerá da face da Terra”.
Na verdade, quando Marx disse isso, voluntariamente ou não, ele alertou muito mais a burguesia – que dizia combater – do que o proletariado, que também pretendia, segundo ele, prevenir. Obvio que ele foi combatido e perseguido por ela, pois ele também almejava o poder. Não obstante, ele foi levado muito a sério por aquela que denunciava. Esta passou a investir pesado em tecnologia, para sair da dependência da mão-de-obra humana. Daí o boom tecnológico que ora constatamos. E em segurança, claro que somente a sua.
E nós, africanos da diáspora, herdeiros da saga funesta de nossos ancestrais, mesmo que à nossa revelia, agonizamos junto a este novo Império Ocidental. Somos vítimas de desvarios de um povo que, se escondendo por trás de seu “Satanás” ousa competir com Olorum sobre a propriedade do Universo, teima por destruí-lo. Mesmo assistindo, ainda algo incrédulo, a derrocada de sua “santa” Civilização Judaico-Cristã Ocidental.
Olorum que lhes dê resposta... Pois, a nossa parte NÓS faremos.

São Paulo, 22 de novembro de 2010.

Neninho de Obalúwáiyé
Coordenador Geral do CRENJA

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sábado, 20 de novembro de 2010

É! NÃO ESTAMOS SÓS...

QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA*

Paulo Colina

Mascar granito. O negro brasileiro se volta para o passado em busca de suas raízes históricas. E arca sob o peso de quatrocentos anos de escravidão. Regime justificado pela teologia cristã, que acenou aos brancos com o destino à superioridade. Quatro séculos suficientes para sedimentar nas mentes da classe dominante brasileira o dogma estúpido de que o negro estaria condenado hereditariamente à inferioridade. Mascar granito. A 14 de maio de 1888, os negros acordaram no Brasil para uma realidade tão opressora quanto a que viviam antes da “Abolição”. A sociedade os elevou à categoria de cidadãos, porém lhes reservou a banda podre do processo social brasileiro. Oportunidades justas? Aos negros, após o 13 de maio, foi destinado o desemprego, a subnutrição, a ignorância, a marginalidade. A chibata, o garrote, o pelourinho foram substituídos por um método ideológico de atrofiamento físico e mental. Havia que se manter os negros em seu estado de congênita inferioridade. Recusar a perplexidade, enquanto manto morno e suave do conformismo. Quase um século depois da Lei Áurea, o negro brasileiro encara o presente e constata que ainda lhe são negadas oportunidades econômicas, sociais e culturais.
Serra da Barriga, século XVII. O Quilombo dos Palmares resistiu por quase cem anos a inúmeras expedições de guerra custeadas por Portugal. Os brancos pintaram Palmares como um simples povoado de escravos fugitivos. Ou antro de salteadores negros. A realidade, entretanto, bem outra. Para os negros, Palmares significou o exercício pleno da liberdade, o resgate de seu real status de seres humanos. Um Estado Negro dentro do Estado de Alagoas, onde negros, brancos e índios exerciam democraticamente o direito de viver do que produziam. De um dos inúmeros mocambos palmarinos, uma criança com poucos dias de vida foi raptada, no começo de 1655. O menino foi dado de presente a um padre português e batizado com o nome de Francisco. Aos 17 anos fugiu. E retornou à Palmares. Para defender o Quilombo e torna-se seu líder, sob o nome temido e  respeitado de Zumbi.
Manhã de 20 de novembro de 1695. Traição. Emboscada. O corpo de Zumbi tomba, peneirado por 15 tiros e diversas punhaladas.
Resistência; liberdade; efetiva e organizada participação social, política e cultural dos negros neste País: os símbolos de Palmares não poderiam jamais se perder com o sangue de Zumbi na mata da Serra Dois Irmãos. Por isso, a proposta, em 1978. Se os negros brasileiros têm que celebrar uma data, que seja o 20 de novembro.
Como o Dia Nacional da Consciência Negra. Organizados.
Mascando granito. Com a certeza de quem verga tempestades. E constrói nações.

*Texto feito em 1988 para a Agenda Cultural Afro-Brasileira -1888

GENOCÍDIO NO HAITI

CRENJA
CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA
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O CLAMOR DE HAITI
                  
Estou sentado à sala de casa. O tempo lá fora continua indefinido. Estamos em plena Primavera. Uma época tradicionalmente de chuva... E está chovendo. E há ainda aquelas famosas "frente polares", ou "frente frias", como queiram. O fato é que nós continuamos assombrados, afinal, alguém disse que a vida no Planeta não terá mais cinqüenta (50) anos... E já se passaram uns três (3) ou quatro (4) anos – será que ninguém está contando? Não creio que o povo seja assim tão displicente. Pode até mesmo ser desinformado, mas quando a barriga ronca de fome ele sabe bem o que significa isso, que deve reagir. Não há como evitar.
Nesses devaneios pseudo-s bucólicos e pessimista minha mente se fixa numa paisagem desoladora e crítica: o Haiti... E isso me faz lembrar de sua história, outrora, diga-se de glória.
“O Haiti é aqui”, diz o poeta baiano Gilberto Gil. Não obstante, com toda a vênia que sua excelência da verve sugere, a que tu és depositário, lamentamos dizer que se equivocou, pois lá é bem pior... Pois ele é um povo de fato consciente. E aqui não muito melhor que lá. Somos herdeiros do mesmo signo, protagonistas de uma mesma sina e história: a História da Diáspora Negra nas Américas.
Digo que lá é pior, pois o povo haitiano que é negro, e ainda preto, convive com a sua realidade, tem consciência de sua luta e do seu querer. Não obstando não conseguir suas pretensões. Cá convivemos com a ilusão, com a mentira e temos-na chamar de “consciência negra”. Que para ser atingida teremos, primeiro, que olhar ao nosso redor, perscrutar o "nosso" Planeta. E não necessário é se ter longo alcance. Mas, lá é pior, e eles têm, realmente, consciência disso.
Tenho em mão um DVD que é um escândalo, um verdadeiro escárnio ao respeito de nossa condição humana. Dá vontade até de renegarmos-nos em quanto tal, a essa condição humana, ora indigna e fétida. Outrora dita digna... Porém, o tempo passou! Bem, para quem tem de fato consciência.
Ele, o DVD, tece por três (3) massacres que ocorreram durante o período entre 2004 a 2006  (foram três (3) ataques: 2004, 2005 e 2006) deste “auspicioso” milênio. E não por coincidência, na vigência, aqui no Brasil, de um governo dito de esquerda, e que diz que também luta pela a erradicação da discriminação racial, pela democracia e contra preconceito sociais, aqui no Brasil e no mundo. Ufa! E este governo saiu aclamado... Fazendo por conta sucessora. Bem! Vamos ver como esta história irá terminar. Rogo que bem.
O DVD é impressionante. Eu pessoalmente, já aos meus sessenta e dois (62) anos de idade, acreditava que não mais me estarreceria diante de situação ou coisa alguma. Eu fiquei, fiquei provisoriamente perplexo... Depois indignado. E mais uma vez ter que recomeçar e dizer: "daqui por diante já não mais será assim..." E tempos depois voltarmos a constatar que nos enganamos novamente e se reindignar. Que prevalece a máxima de que "não se deve confiar em humanos, e sim somente nas feras". Ao vermos afros-descendentes, irmãos históricos de nossas desventuras, sendo exterminados como outrora fizeram com os animais de nossa fauna e nossa flora. Mas, no entanto, nos rejuvenescemos diante da lembrança de Lourence de L’Ouverture, Jean Jacques Dessaline, e do povo aguerrido haitiano, nossos irmãos da diáspora. Esta ex-colônia, que outrora fora chamada de “A Pérola da Coroa”, quando a mais próspera colônia das Américas, sob a ocupação colonial francesa - que como ressarcimento de guerra teve que pagar um elevadíssimo preço econômico, e nunca mais se recuperou. Povo que proclamou sua própria abolição da escravatura, em 1789. E logo após, em 1801, Lourence D’Louverture, filho de ex-escravos, foi eleito o primeiro presidente da República do Haiti. Pouco tempo depois, Jean Jacques Dessaline proclamou-se imperador, combatendo e vencendo o estrepito exército de Napoleão Bonaparte. O Ocidente nunca, em momento algum da história, esta que ainda se desenrola, perdoou a “audácia negra”, que entende como afronta, por querer ocultar que sim por preocupação quanto ao exemplo que este povo pode dar à diáspora negra das Américas. E o mundo branco teceu retaliações sinistras no calar de suas (in) consciência humana e doentio interesse. Nunca! Jamais o Haiti foi perdoado.
Dizer que não se ajuda o Haiti por que lá só tem governos corruptos é hilário. Conversa pra boi dormir! Todos os países da América têm governos corruptos, quiçá, do Planeta. O que muda, às vezes, são as legislações e a cultura, apenas isto. Todavia, os resultados são sempre os mesmos, eles ficam sempre impunes, ou chame-se isso lá do nome que quiser. O fato é que o branco já se sente dono do mundo, entretanto, a posse ainda não está consolidada... 500 anos é apenas um instante na História.
Mas na verdade, o mais terrificante foi saber que quem comandou o processo foi a própria ONU (Organização das Nações Unidas), esta que foi criada para "fomentar a paz no Planeta Terra", e naquele momento sob o comando de um negro, africano, e “prêmio nobre da paz”. Ora! Se isso tudo não é uma encenação de uma piegas e astronômica, uma tremenda armação, de mais uma farsa criminosa do Ocidente. Ou apenas de mais um capítulo, desta que já dura quinhentos (500) anos. Não! Esta história não vai ocorrer não... Ela já ocorreu. Agora, somente teremos e conferiremos os resultados. E com um forte “tempero”: o de que o Exército Brasileiro também participou e comandou a “força de paz” que praticou a chacina em 2006. Ô Loco! E aqui dizem que gostam de nós! E nós? Acreditamos ainda em “democracia racial!” Apenas por que eles disseram que isto é bom, somente se esquecendo de demonstrá-la. Somente se esquecendo de dizer pra quem! E este episódio não é uma simples retaliação, e sim: genocídio, pois está previsto nas Legislações, nacionais e internacionais. Porquanto, não carecem eufemismos baratos.
Bem, teremos mais quatro (4) anos para provar que o PT é de fato um partido do povo (e por certo que não do negro)... Ou se pelo menos está por ele preocupado de fato... Só que não dará para esperar mais oito (8) anos para constatar isto não! Achamos bom que o PT cumpra tudo em seus somente quatro (4) anos, que lhe resta. Afinal, foi anunciada a continuação da gestão anterior (Olorum queira que não aja mais genocídios... Se Ele puder evitar)... E ora aclamamos pela conclusão. Nós não temos mais tempo. O PT não tem mais tempo. Ninguém tem mais tempo, pois o tempo urge. Ambos têm que mostrar a que viemos. E quem não puder se provar perderá o jogo. É! Este e o eterno jogo do poder... E agora que vença o melhor! A diáspora negra na América acordou.
Que Olorum que salve o Haiti e nos proteja.
Axé,

São Paulo, 18 de novembro de 2010.

Neninho de Obalúwáiyé
Coordenador Geral do CRENJA

         PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS!


terça-feira, 16 de novembro de 2010

QUE HORA É ESTA?

CRENJA
CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA
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A VIDA NÃO AGRACIA OPÇÕES

Wilsão era um presidiário. Poderia ter qualquer outro nome ou apelido. Ele era uma pessoa comum que por motivos diversos caiu naquele mundo: o mundo do cárcere; que outros chamam de submundo. Wilsão já estava tirando “alguns dias”, ou seja, alguns anos. Fora condenado por roubo. Todavia, ele parecia uma pessoa pacata.
Durante os dias, no recreio, Wilsão, quase sempre era chamado para atuar como juiz de jogo de futebol. Era respeitado.
Para se ser “juiz”, mesmo que de futebol, na cadeia não é coisa para qualquer um não. A coisa é louca. Tínhamos a experiência daquele que apitou um pênalti contra um time de “bandido” – imagine, bandido, isso é somente cá fora, pois lá dentro são apenas cidadãos em recuperação (?). Creio não precisar dizer que este arrumou para a cabeça e pro corpo todo, senão para a própria vida. Futebol nos presídios é algo de muita estima, de verdadeira devoção, mais até mesmo que aqui fora... Pois lá, é a única coisa que o presidiário tem como lazer. Enquanto uns jogam outros assistem. E que joguem direito. Pois se o jogo estiver de veras ruim são expulsos os dois times, pela torcida. É! Lá não tem alambrados, e muito menos pelotão de choque para livrar a cara de juiz de futebol, que, por solidariedade e respeito nunca é chamado de “ladrão”.
O juiz em questão aplicou uma penalidade máxima em cima do time de maior torcida, não deu outra. Logo alguém pulou e pegou-lhe pelo cordão do apito rente a garganta e começou a gritar-lhe: “Tire o apito. Tire o apito...” E ele tentava, até desesperadamente, olhar para onde o oponente estava-lhe segurando, para sugerir a impossibilidade. Mas não teve jeito ou êxito, teve mesmo que arrebentar o cordão para escapar da ira do torcedor revoltado.
Como eu disse, o Wilsão era respeitado. Primeiro que não tinha B.O. Ou seja, não tinha mancado registrada em seu currículo... E segundo que ele não ia marcar uma daquela, assim como o juiz citado anteriormente. O Wilsão estava para ir embora da cadeia. Não estava condenado há muitos anos. Precisava apenas ficar na manha e esperar; mas claro que lá só o que não se pode é relaxar. A disciplina é severa. E os dias iam se passando...
Um certo destes chegou – aliás, como chegava todos os dias, no final da tarde - no Carandiru, uma nova leva de presos. Uns primários e outros reincidentes. Os primários iam para o Pavilhão Nove, e os reincidentes para o Oito. O Wilsão estava no Oito.
Um dia ao sair de seu xadrez deparou-se com um velho conhecido teu, morador do mesmo bairro. O Wilsão tinha desavença com este teu recém reencontrado. E este o interpelou: “É, ocê me deve”. Wilsão tentou argumentar: “Olha, aquilo aconteceu na rua. E bronca de rua se cobra e resolve na rua. Eu estou para ir embora, e ocê também não ficará muito tempo. Portanto, vamos deixar para resolver na rua”. O desafeto nada falou. Apenas virou a costa e foi embora. Wilsão se tranqüilizou.
À noite, depois da tranca, é que começam os buxixos. E o rapaz recém chegado contou na sua cela o episódio. Não o recente, mas sim o “da rua”. E todos, no xadrez ficaram indignados. O caso era o seguinte, o Wilsão havia tomado um revólver daquele, e este, segundo ele, não havia o encontrado na rua para o necessário acerto de contas... E foram se encontrar novamente somente ali. A regra da cadeia é clara, “treta de rua é treta de rua, e somente se resolve na rua, isso é, se não for muito grave”. Aquela, portanto, era treta de rua. Mas o pessoal de seu xadrez não se conformou, tudo acendedor, e atiçou grandão a morte do Wilsão. Durante a noite, enquanto que este não estava sabendo o que estava sendo tramado contra si.
De manhã, ao sair de sua cela como de costume Wilsão deparou com o indivíduo com uma faca na mão e sorriso de vingança nos lábios. Wilsão tentou freneticamente argumentar, mas já era tarde demais, ele foi esfaqueado por umas quarenta vezes (na cadeia não se morre de um só golpe, isto caracteriza a fraqueza do executor e seu pouco empenho e despreparo, tem que ser pra fazer mídia, ter performance). E Wilsão deixou seu corpanzil estirado na laje fria da galeria da masmorra.
O corpo do Wilsão ficou durante o dia todo até a manhã seguinte em uma sala, solitário, no Pavilhão Cinco.
O Wilsão tinha um irmão. Este já estava tirando algo em torno de quinze (15) anos de pena. Estava aguardando a sua liberdade condicional. Esta que só a recebe quem tem “bom comportamento”. Ele já estava até mesmo no Pavilhão Dois e trabalhando na Portaria. Estava somente aguardando a documentação, o alvará, para ir embora... Foi quando recebeu a notícia: “Mataram teu irmão, lá no Fundão”. O irmão de Wilsão – que chamemos-no de Carlos -, nem sequer reagiu. Nada disse. Simplesmente se calou.
No mesmo dia pediu dispensa do setor ao qual estava lotado e pediu para voltar pro Fundão. Foi aconselhado por alguns funcionários que lhe tinham estima. Mas mesmo estes sabiam que não havia alternativa. É que entre os presos ainda prevalece o sentimento, hoje defasado aqui fora, de honra. Imaginem, eles guardam suas honras, ainda, no vão das pernas de suas mulheres! Parece exagero, mas é assim que funciona.
Carlos foi transferido a noite, e nem esperou o outro dia clarear intensamente. De manhã cedinho estava fora da cela, com apoio tático e logístico é claro, e emburacou para a cela do algoz de seu irmão. Sabia que lá ele não estaria sozinho, e que todos que lá estavam envolvidos eram cúmplices, portanto também culpados.
Ao chegar na porta da cela junto aos seus companheiros deu o ultimato: “Quem tiver faca que as tire, pois vão morrer do mesmo jeito”. Enquanto isso os demais percorriam um molho de chaves a procura de uma mixa que “cantasse”. E cantou, e o Carlos e demais caíram pra dentro. No final da contenda havia sangue até no teto da cela, e todos os habitantes desta estavam mortos, pois assim como aqui fora, as leis têm que serem cumpridas. Só que lá elas o são. Mas aqui depende das vítimas... E ficamos sempre deixando de saber quem é ou são os verdadeiros culpados.
E nosso “crime” foi o de apenas nascer negro. Mesmo sem culpa a sociedade não nos “perdoou”.

São Paulo, 16 de novembro de 2.010.

Neninho de Obalúwáiyé
Coordenador Geral do CRENJA

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domingo, 14 de novembro de 2010

O HOLOCASTO

Crenja
Centro de Resistência Negra Jagas Angola
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AGORA, O QUE FAZER?

Esta é uma pergunta que deveria estar sendo feita e respondida pelo movimento negro brasileiro. No entanto, estamos já há mais de trinta (30) anos no mais completo marasmo, desde que a primeira entidade negra de caráter político exclusivo, foi fundada oficialmente, em 1979.
Nossa história, quanto a personagens históricas, já está suficientemente caracterizada. Sabemos até que não somos descendentes de imigrantes. Ou seja, nossos antepassados entraram à sua revelia nesta história, que está tendo uns desfechos imprevisíveis, que por sua vez nos faz vítimas involuntárias de sua trama diabólica, e sujeitos aos caprichos de nossos algozes, e sem ao menos a menor satisfação do por que devamos obedecê-los em suas determinações. Repetiremos, e não nos cansaremos de fazê-lo, que nós outros entramos à nossa revelia nesta história, hoje evidentemente estúpida e hedionda, de “civilização judaico-cristã ocidental”. Esta que de princípio se autodefinia como “evoluída” e “progressivista”. No entanto, ora se mostra irresponsável e exclusivista. E tudo que demonstrou durante estes últimos quinhentos (500) anos nada mais é que mera bazofia, pois começa a demonstrar todos os seus defeitos, e, em contrapartida, nenhuma virtude ou efeito positivo. Pelo menos não para nós outros. E nem, pelo que se pode constatar, para o seu – assim achamos que devem se considerar – semelhante, ou seja, irmãos de suas próprias etnias. No entanto, sempre a nós outros nos cabem os maiores sacrifícios, aliás, nunca ressarcidos, além das discriminações que sofremos, somos ainda acusados de sermos os próprios e principais responsáveis por nossa precariedade. E mantiveram a nossa maioria na ignorância, apenas para nos impedir de solucionarmos o nosso desatino. Mas, como dissemos a responsabilidade não é nossa, pois entramos a nossa revelia... Pior que isto! Não fomos nós que entramos! E sim os nossos ancestrais. Foram estes subjugados, não importa se comprados ou não, ou de quem ou por quem, o fato é que nós, atualmente não temos nada com isso, e não devemos ou podemos pagar por erros de outrem ou mesmo da suas História, sejam lá estes dos nossos ancestrais ou dos deles. Pois somos filhos, também, deste Planeta Terra, seres também humanos, e porquanto também proprietários deste, por natalidade. Os regimes e sistemas vieram a posterior, e foram impingidos à força. O movimento negro nacional propõe seja este dilema resolvido de maneira amistosa propõe a instalação de um regime democrático racial. Este que, aliás, é nem uma proposta tua, mas sim daqueles mesmos que hoje ainda insistem em não deixá-la se consolidar ou ao menos concretizar. Ela é proposta dos nossos algozes. Estamos falando dos etnicamente “brancos” e descendentes europeus, que são os percussores de todas estas desgraças as quais passamos e atribula o restante do mundo.
Para a maioria dos brasileiros que vivem nas trevas da ignorância – mesmo admitindo que isso só foi conseguido compulsivamente -, toda esta história de descriminação e maus-tratos aos negros, hoje afros-descendentes, tem início no século XIX, mais precisamente no ano de 1888, quando da falsa “abolição da escravatura”. Ledo engano. Há outros que o julgam ter início nos princípios do século XVI, em 1532, quando os primeiros africanos começam a serem cambiados e transladados através do Oceano Atlântico para as Américas. E novamente se enganam. O nosso martírio tem origem numa época bem mais remota.
A cinco (5) séculos desta Era dita cristã, tanto quanto gregos os romanos que na época escravizavam os seus próprios conterrâneos, iniciaram os seus aportes ao Norte da África, dita por eles de “terra dos povos malditos”, por inúmeros conceitos religiosos nos quais diziam crer. Obviamente que hoje sabemos que não era somente por isso, pois havia também o interesse de lucro por trás de suas “crenças” – assim com ainda é hoje. Mas, naquele momento, foram esta as suas alegações. De princípio, negar nos a condição humana, e, consequentemente, fazer-nos de mercadorias para seus negócios. E se “esqueceram”, nos transcorrer dos tempos, de nos abolir também de seus próprios erros e fracassos reais de suas funestas ambições e pretensões, as de transformar o mundo e torná-lo mais aprazível à vivência humana, a todo ser que a ele, o Planeta Terra, habita. Nisto falharam fragorosamente. E somente agora começamos a descobrir que o “progresso” de seus erros é irreversível. Mas, como seres inteligentes que autodizem ser... Deveriam ter muito antes previstos... E evitado, pois isso é o que faz inteligente. O faz diferente. E agora o prejuízo é de todos nós.
As condições nas quais nossos antepassados foram transportados Oceano afora são indescritíveis, e a maioria dos nossos, contemporaneamente, já nem se lembram mais, ou o desconhecem mesmo. Portanto vamos relembrá-los, com um trecho deste livro:
Nos primeiros tempos da proibição do tráfico, se considerava culpado um capitão se unicamente fossem encontrados escravos a bordo, motivo pelo quais alguns levaram sua falta de escrúpulo até os extremos de lançarem os negros ao mar antes da inspeção. Assim o fizeram, em 1831, o navio português Rápido e a escuna espanhola Argus, interceptados no delta do Níger. O pior drama deste tipo ocorreu a bordo do brigue inglês Brilliant. Perseguido por três naves da repressão, seu capitão, Hormann, os 600 escravos que transportava. Lançou a âncora ao mar, arrastando as infelizes atrás dela. Embora tenha ouvido os gritos de horror dos negros, os oficiais quando subiram a bordo, não puderam encontrar provas e o capitão Hormamm saiu incólume do caso” [1].
Não estamos transcrevendo isto com o intuito de “horrorizar” as demais pessoas nem ‘mais’ os nossos, muito pelo contrário, o que de fato queremos é “refrescar” a memória daqueles que se dizem “militantes negros” e insistem nesta estória estúpida de ‘democracia racial’. Está balela. O ser-humano não nasceu para viver em harmonia. Não somos nós que não a queremos, e sim, são eles que não a querem. Pois, partindo do princípio de que foram eles quem propôs seria de seus interesses tomar a iniciativa. E antevendo argumentação defensiva, há de se provar, também, que os brancos atuais são diferentes. E, por que mudaram de postura? Se for que mudaram! E quanto aos negros contemporâneos, estes terão que revelar se são somente relapsos ou se somente estão com medo mesmo de encarar a realidade escancarada. “Democracia racial” é uma utopia, puro engodo.
Quanto à questão da miscigenação, que, aliás, nos “contempla” com dois principais grandes problemas, pois todo mundo sabe que ela foi impingida com o intuito de nos eliminar. Porque deste o começo que o branco discursa abertamente: “Um dia não haverá mais negros no Brasil. A miscigenação acabará com todos eles”, quem ouviu e não entendeu ou é surdo ou cínico. E esta expressão é proveniente de uma ordem imperial, de D. Pedro II, quando tentou convencer Gobeneuo de que “dentro de duzentos (200) ou trezentos (300) anos não haveria mais negros no Brasil”. Ordem esta que é seguida à risca até os dias atuais. E sem trégua. Somente não nos “apercebemos” por que eles negam,  ou por que somos relapsos e/ou acovardados, nos subtraindo deste azar do direito de defesa. Porquanto, além de crime hediondo é este também doloso.
E para não ficarmos as mercês de objetivos maliciosos e torpes o movimento negro nacional terá que dar respostas rápidas – pois 30 anos é tempo demais para se dar resposta – ao seu povo. Até por que para os brancos ele dá respostas rápidas e precisas, ao comando de suas ordens. E estas que sejam sem evasivas ou tangenciamentos, pois o povo, a História, nossos Ancestrais e Olorum clamam por elas... E já estão cansados de esperar.
E também para fazer valer o dito do “militante histórico” dos movimentos negros nacional, que diz no auge de sua “sabedoria”:
- Nós precisamos, quanto ao genocídio, preservar a nossa juventude, pois ela é a preservação de nosso futuro.
Só se esquecendo que se tudo continuar como está não haverá mais para nós futuro. E que não são somente os jovens que estão sendo mortos... E sim todos nós. Eles querem apagar com todos os vestígios de seus passados nefastos. E não intentam de maneira alguma nos indenizar, de qualquer forma, por ele.

São Paulo, 4 de outubro de 2010.

Neninho de Obalúwáiyé
Coordenador Geral do CRENJA

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[1]  Senin, M. - A ESCRAVIDÃO – Editora CEDRIBA -1972 – P. 96.

UNIÃO? MOTIVOS NÓS TEMOS.

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O COTIDIANO NEGRO

A cena, que postamos abaixo poderá para algum – o que duvidamos muito – pareça um caso isolado, mas não o é, ele é apenas mais um caso de descaso do Estado para com seus concidadãos. Que, aliás, não cabe a ele defini-lo, classificá-lo a seu bel prazer, pois a definição cabal já está a cargo da Constituição Federal, que rege todos os poderes e vontade... Ou pelo menos deveria ser assim. Se for coisa séria. E ela nos diz que somos, todos, iguais perante a Deus, à Lei e aos Homens.
Uma zeladora de uma religião, que por sua vez se diz de “matriz africana”. O apóio solidário é compulsório e inconteste. Ela tem todos os requisitos que nos coloca na sua luta, a sua luta individual, a luta pela religião e os Orixás. Estes que têm, de fato, origens no continente africano. Em África, a Pátria Mãe utópica dos africanos da diáspora. A nossa origem. E tudo aquilo que nos traz lembrança a esta Pátria querida, impele-nos de postar em defesa, para que nossa memória não seja também extinta, como extintos serão os nossos corpos e a lembrança de nossos ancestrais. Se não nos preservarmos.
Não! Não é um caso isolado. Este é o dia-a-dia da população de ascendência africana no Brasil, desde 1888. Sejam estas naturais ou miscigenados todos recebem o mesmo tratamento desde de que “não se comportem”. E “se comportar” significa submissão... e nem isso evitará o “nosso” destino. Ele já foi decidido, e não por nós E o prêmio para que “se submetam” não é lá muito convidativo. Apenas umas poucas outras regalias.
A ofensa moral, deste episódio, eu tenho a certeza, pois passei recentemente por uma situação semelhante. Além de ter sido vilipendiado em meus princípios constitucionais garantidos, fui preso, acusado, processado e torturado gravemente, e sobrevivi... Ganhei ação penal contra o Estado. Fato inédito. Mas isso somente interessa a mim mesmo. Ninguém mais se importou. Muito pelo contrário. Ainda, veladamente, sou acusado de algum mal, “que não sabemos ainda qual é”, mas que ele cometeu... Ou cometerá! São uns imbecis, Pois, eu sobrevivi. Aos fatos e fofocas.
O caso da Zeladora africanista é emblemático, partido de que é uma referência para todos os outros demais casos que se referem à comunidade negra deste país. Que, aliás, nunca são favoráveis. O que o caso demonstra é a total falta de respeito com que este país tem para com seus concidadãos negros, sejam homens, mulheres, jovens ou crianças. E ainda não temos a quem recorrer se não for que à gente mesmo. Solidariedade étnica e racial é a solução pro problema. Estamos encurralados e amordaçados. Precisaremos gritar muito alto para que sejamos ouvidos. D.Benedita Souza Ferreira dos Santos, que por certo não será esquecida, mesmo não sendo a primeira. Entretanto, não é só de sentimentos e lágrimas que o mundo funciona. Aliás, nem se comove. Há, também, que se ter muita luta. Luta pela dignidade, luta pela sobrevivência da raça. Esta que não exista(e) biologicamente, porém, existe político e socialmente. E é esta que combatemos. A falsa “democracia racial”. Que é apenas cortina de fumaça para as desgraças as quais estamos expostos. A verdadeira fal(r)sa moral burguesa.
Estamos o mais um passo do que chamam de “Marcha da Consciência Negra”. É complicado. Não se pode criticar sem correr o risco de se passar por “desmancha prazeres”. Ainda não ficou claro que o negro brasileiro vai à rua. Vai por que? Pra que? O negro brasileiro ainda não deixou isso claro. O negro brasileiro ainda não percebeu que já está na rua há muito tempo, morando. Ou talvez não esteja sendo suficientemente objetivo. Interpretações são interpretações, e elas podem ser das mais variadas, se não mostrarmos objetividades. O outro lado tem que saber o que queremos, o que almejamos. Senão não há justificativa para o ato. Agora, se nos darão ou não o que solicitamos... Bem, isto é coisa que resolveremos no tapetão.
As regras do jogo são claras, uma delas, aliás, diz que: “pra se atingir ou se manter no poder há de se ter moral”. O que é a moral? Bem, quanto a isto basta consultar um qualquer bom dicionário. Polêmicas à parte, a luta começou. Queremos saber o que somos, o quanto valemos e qual o nosso destino. Até por que todos nós entramos à nossa revelia nesta história estúpida e inconsequente de “civilização judaico-cristã ocidental”. A causadora de todos os nossos males, independente de gênero, raça, credo e nacionalidades, mas somente de classe social. Estamos todos no mesmo barril, que outrora fora um Planeta. E nosso.
Estamos bradando do Fundo do Grotão...

São Paulo, 14 de novembro de 2.010.

Neninho de Obalúwáiyé
Coordenador Geral do CRENJA

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

RESPOSTA À CONSCIÊNCIA

União e consciência negra - divulgar

De:
carlos eduardo pinto de magalhaes 
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União e consciência negra
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Marcelo Barros *

No Brasil, esta semana começa pela recordação do dia em que foi implantada a República (15 de novembro) e se encerra com o dia consagrado à União e Consciência Negra. Segundo historiadores recentes, no Brasil, a mudança da Monarquia para a República aconteceu quase por engano ou por acaso. Não era a opção profunda do Marechal Deodoro e de seus companheiros. E não significou uma verdadeira transformação da forma de exercer o poder que continuou com as elites (Cf. Fábio Konder Comparato em Caros Amigos, nov. 2010). O segundo fato recordado nesta semana ocorreu em 20 de novembro de 1696. Neste dia, Zumbi dos Palmares, líder da resistência negra contra a escravidão, foi martirizado. Atualmente, em várias cidades, este dia é feriado e conclui uma semana de comemorações culturais. Uma criança perguntou à mãe se união t em cor e o que significa "consciência negra". A unidade das raças e a igualdade entre os seres humanos supõe que cada cultura e cada povo tenha consciência de sua dignidade. Chama-se "consciência negra" o fato das pessoas afro-descendentes assumirem sua identidade cultural, conscientes do imenso valor de sua cultura, para contribuir com as outras na riqueza intercultural do Brasil. A comemoração anual da memória do Zumbi é importante em um Brasil que ainda mantém uma herança de forte desigualdade social. Em inúmeros casos, na realidade brasileira, ser negro é quase sinônimo de ser pobre e ter menos acesso à escolaridade e ás condições sociais de outros brasileiros. José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, afirma: "A cor negra da pele de homens e mulheres, assim como sua raça e cultura própria, foram motivos de crueldade humana e de barbárie que mancharam e continuam manchando a dignidade da humanidade" (Carta Capital, 12/11/2008,p. 60). Por isso, são sempre importantes e oportunos os programas que fomentam a igualdade de condições e a integração social de negros e brancos. Conforme a Constituição B rasileira, devem ser respeitadas e valorizadas as comunidades remanescentes de Quilombos. São grupos que, desde os tempos da escravidão, reúnem negros, seus aliados e descendentes, em uma comunidade com cultura e valores próprios. Eles devem ter direito à terra coletiva e merecem das autoridades públicas a proteção e o apoio necessários. Estas comunidades estão organizadas em quase todos os estados e somam mais de dois mil grupos e comunidades. Algumas delas mantêm elementos de idioma, de danças e costumes ancestrais que são de uma riqueza incalculável para todo o Brasil.
Uma das mais profundas riquezas das culturas afro-descendentes é a espiritualidade viva e bela das comunidades negras. A Mãe África permanece viva e atuante na memória religiosa dos seus filhos e filhas. Para ser escravas nos diversos países da América, foram seqüestradas pessoas de diferentes áreas do continente africano. Para evitar rebeliões, os senhores separavam os escravos vindos do mesmo clã ou região. Misturavam etnias. Proibiam que falassem as suas línguas e praticassem as suas religiões. Mesmo impedidos de saber onde estavam outros membros de sua família, também seqüestrados, os afro-descendentes conseguiram manter as línguas, contar a seus filhos as histórias dos seus antepassados, guardar as canções da Mãe-África e reconstituir muitas expressões culturais e religiosas. Só podiam cultuar à noite, enquanto os brancos dormiam. Como objetos de c ulto, só possuíam seus corpos, suas vozes e os terreiros das senzalas, seus templos. Foram obrigados a adaptar antigos costumes da África às novas condições de clima, ao pouco tempo livre de que dispunham e à sua extrema pobreza. Fundiram costumes religiosos, adaptaram mitos e elaboraram oralmente uma explicação religiosa do mundo e da sua história. Esta teologia narrativa deu origem a religiões novas como o Candomblé, o Batuque, o Tambor de Minas, a Santeria cubana e o Vodu haitiano. Durante séculos, de geração em geração, se transmitiram ritos, cânticos e histórias ancestrais.
Um Cristianismo, testemunha de que Deus é amor e inclusão, não pode deixar de respeitar e valorizar estas religiões que, na história, foram responsáveis pela resistência dos nossos irmãos e irmãs negras em meio a um sofrimento tão intenso e continuado. A base da fé cristã é que a Palavra divina se fez carne e se revelou no meio de nós através da pessoa de Jesus de Nazaré que assumiu toda a condição humana e todas as culturas com seus valores para revelar em tudo o que é humano a presença divina. Nós somos chamados a continuar este caminho de reverência amorosa e delicadeza no diálogo e na colaboração com as outras religiões e culturas.

* Monge beneditino e escritor



Date: Fri, 12 Nov 2010 19:13:45 -0200
Subject: Fwd: Caso de tortura a ialorixá pode resultar em novos afastamentos
From: jonysampa@gmail.com
To: jonysampa@gmail.com

É isso aí povo guerreiro.
É como costumo dizer, não existe, polícia boazinha ou ruinzinha.
A  plicia faz parte do que Marx considerava o aparato repressivo do estado, visando controle social dos pobres e demais desvalidos.
Não nos iludamos jamais, no Rio de Janeiro, Caveirão e UPP, em São Paulo, Rota e Operação Saturação, No Espirito Santo, as tais  escuderias, em minas o governo já comprou um caveirão, e em Salvador, são os crimes sem solução.
Essa política de extermínio seletivo não pode passar sem contundente denúncia, nacional e internacionalmente.
 
Xangô é Rei -
João de Oliveira - Assoc. Cultural Refavela
Membro da Coordenação Estadual da CONEN-SP

 




 

EXCLUSIVO: Caso de tortura a ialorixá pode resultar em novos afastamentos

Evandro Veiga
 Bernadete Souza Ferreira dos Santos
Não desenvolveu-se em bom termo a reunião que o governador Jaques Wagner (PT) teve ontem com lideranças do movimento negro, sem-terras, parlamentares e religiosos para discutir o caso da ialorixá Bernadete Souza Ferreira dos Santos, torturada por dois PMs com requintes de crueldade. Em vários momentos, o governador demonstrou sua indignação com o fato, cobrando, inclusive, uma apuração rigorosa e rápida sobre a ocorrência. Da denúncia contra os dois policiais, consta que, demonstrando grande perversidade, teriam jogado Bernadete sobre um formigueiro no momento em que ela se encontrava em transe religioso. Um absurdo! Na parte mais tensa do encontro, as lideranças foram praticamente unânimes em demonstrar seu descontentamento com a maneira com que questões de racismo e intolerância religiosa têm sido tratadas pelo aparelho policial baiano. Participaram da reunião pelo lado da polícia o secretário estadual de Segurança Pública, César Nunes, o delegado-chefe da Casa Civil, Joselito Bispo, e o comandante-geral da PM, Nilton Mascarenhas, que acompanhará diretamente as investigações. Uma delegada foi escolhida para promover as apurações. Os dois soldados acusados da tortura contra a ialorixá foram afastados da corporação. Mas não erra quem apostar que os afastamentos não ficarão por aí.


--
Axé.

2010 Excelente com DILMA PRESIDENTE!!!
 
Muito FELIZ, DILMA A PRESIDENTE DO BRASIL:
 
DILMA 13 Presidente

"O que me incomoda não é o barulho dos maus mas sim o silêncio dos bons" Pastor Reverendo MARTIN LUTHER KING

Law Araújo
Letras Vernáculas UCSal
Coordenador Geral ExNEL Nordeste Gestão 2010/2011
Partido dos Trabalhadores (PT/Bahia)
Militante da JN 13 - Juventude Negra do PT
Militante da Corrente Articulação (CNB - Construindo um Novo Brasil)
Coordenação Nacional de Entidades Negras - CONEN