CRENJA
CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA
União, Solidariedade, Saber e Luta!
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O GENOCÍDIO SUTIL...
O termo genocídio é um neologismo. Criado a partir de 1945, com o término da Segunda Guerra Mundial com o propósito de reparar o povo judeu de seu holocausto em campos de extermínio alemães e guetos, tais como o Gueto de Varsóvia. Todavia, a prática se dá há milênios por este Planeta afora. No que diz respeito aos povos africanos ele tem início ainda no século VI a. C., quando os povos gregos e romanos aportaram nas Costas Norte do Continente africano, E teve início a Diáspora Negra.
Neste século, estes povos que até então se escravizavam entre si, seus próprios conterrâneos e passam a modificar seus “hábitos civilizatórios”. Deixam de escravizar seus próprios em detrimento aos povos africanos, já na época “amaldiçoados” por estes com argumentos dos mais esdrúxulos e vagos.
Entretanto, no século V a. C. os árabes entram também na atividade. Passam também a explorar o Norte africano e a também raptar e escravizar seus nativos. E com o passar dos tempos “sofisticam” seus métodos. E estes que são herdados e copiados pelos português e espanhol. Isso já no final do século XV e princípio do século XVI.
No princípio do século XVI, Frei Bartolomeu de Las Casas, que se dizia “defensor” dos povos indígenas brasileiros e contrário à suas escravizações sugere a troca destes por africanos. Baseavam-se nos supostos “bons resultados” obtidos no Açores e Portugal, onde africanos foram escravizados e inseridos no plantio de cana-de-açúcar. Produto este essencial, na Europa, da época. Proposta esta que foi prontamente atendido.
Os primeiros “escravos” africanos ficaram por conta da tripulação africana da esquadra de Tomé de Souza (1503? -1579?), o primeiro governador geral da Colônia portuguesa no “Novo Mundo”. A única, aliás, pois o demais território dito latino fora conquistado pelos espanhóis. No dia 27 de março de 15 49, aportava na Bahia o primeiro governador geral do Brasil.
Segundo o Professor Simão Souindoula, Vice Presidente do Projecto Internacional Científico << A Rota dos Escravos >> e representante da UNESCO em Luanda, Angola. Projeto este produzido também pela UNESCO, dados estes também confirmados por François Du Bois (1529-1584), no princípio do século XX: mais de 100 milhões de africanos, em fase produtiva, entre 15 a 25 anos de idade, homens e mulheres foram arrancados de África e trazidos para o Novo Mundo. E destes somente 30 a 40 milhões chegaram com vida ao destino. E a maioria deles veio para o Brasil...
A ideia divulgada no Brasil de que “os proprietários de escravos eram bons, zelosos e responsáveis com suas propriedades, os escravos”, cai por terra quando recebemos outra de que “dada a menor distância entre a África e o Brasil barateava o preço da mercadoria”. O que transformava o então escravos descartáveis, assim como casca de legumes ou qualquer outro dejeto. A escravidão, no Brasil, foi na verdade cruel. E desta crueldade trazemos sequelas e resquícios até os dias atuais: a discriminação racial e o preconceito de cor.
No ano de 1888, afirma-se, no Brasil, que foi promulgada a Lei Áurea, (Lei Imperial n. º 3,353), que dizia ter por finalidade a “abolição da escravatura” no país, e sendo este, pelo menos em tese, um dos ideais do movimento republicano da época. República esta que foi proclamada um anos depois... No entanto, desde 1850, na perspectiva imprescindível de que a abolição da escravatura era inexorável, as classes políticas da época se preocupavam com o enorme contingente de africanos e seus descendentes no país. Segundo Malte Brun em 1830, em seu Tableau Statistique Du Brésil, estima no momento uma população de 1.347.000 brancos contra 3.993.000 pretos e pardos no Brasil, ou seja, 74,78% de negros. Era esse, portanto, um dado preocupante para as classes dominantes e políticas da época.
Então, esta mesma classe política engendrou um plano diabólico, o extermínio gradual e sutil da população afrodescendente. “Sutil” porque esta não poderia perceber, pois sendo maioria se revoltaria. Nesse caso a miscigenação teve um papel decisivo, “encobriria e justificaria o crime”. Este que, aliás, na época nem o era assim considerado, porém, moralmente inadmissível e abominável. Além de que, também esta criaria um clima de desunião e confusão nesta população que favoreceria os dominantes. Assim como veremos mais adiante...
A violência policial não tem papel determinante no extermínio de negro no Brasil, pois ficaria muito evidente. Esta, assim como a miscigenação, pois a partir do detalhe que os brancos dizem considerar que o mulato não é mais negro, e que esta foi a “justificativa” do Imperador D. Pedro II, em 1882, quando do episódio envolvendo o Conde D’Eu, o Gobeneau, que disse “Dentro de 200 ou 300 anos não haverá mais negros no Brasil...” E concluiu, “... A miscigenação acabará com eles”. O que deixa claro que a miscigenação não é um simples “ato de amor” recíproco, como atualmente quer nos fazer crer. E sim um plano, uma arma de extermínio étnico e de massa. Entretanto, o genocídio brasileiro tem também outras facetas. A violência policial tem apenas por objetivo intimidar a população negra para que não se organize. Puro e também “sutil” terrorismo. E a miscigenação é criminosa, pois foi induzida, forçada, não restando ao negro brasileiro, alternativa, se não de “melhorar a raça”, para ser supostamente integrado. O branqueamento da população foi outra impostura. E a mulher negra a maior vítima da “sedução”, pois se prostituiu ou foi prostituída.
Há alguns anos atrás fui chamado por uma advogada, que não vou declinar nome por esta já ser falecida... Porém o fato não. A assisti-la numa pesquisa sobre o paradeiro de um morador de rua que fora internado no Hospital Municipal São Paulo, na Rua Vergueiro, em São Paulo. O dito cujo havia sido internado e ao ser procurado por seus companheiros de infortúnio receberam estes a informação de que ele já havia tido alta. Do que eles logo desconfiaram. Afinal, se ele tivesse tido de fato alta por certo teria retornado ao local de destino, ou seja, o local onde pernoitavam, à rua... No entanto não o fez.
Porquanto a advogada foi procurada, pois dizia ela ser a “advogada dos miseráveis” – basta dizer que ela era ligada ao MNU. E ao comparecer ao Hospital recebeu a mesma informação. Então resolveu perguntar onde ficava a Diretoria do Hospital. Resposta esta que teve negado. Resolveu procurar o Plantão Policial do Hospital...
Neste, encontrou um policial de plantão que lhe informou estar desconfiado daquelas ocorrências. Segundo ele eram frequentes. E ele também desconfiava de homicídio de moradores de rua. No entanto não podia, mesmo sendo policial, questionar e muito menos investigar, pois temia perder o emprego. Sugeriu então que tiraria Xerox das ocorrências daquela semana e entregaria a ela. E ela, se interessasse que investigasse. No dia aprazado ela me procurou e pediu-me que fosse com ela.
Mesmo a contragosto, pois ela dissera que o problema envolvia um “companheiro nosso”, a contragosto eu fui. E como ela era ultra preconceituosa, me neguei de princípio, pois até onde constava eu nunca morara na rua... Mas ela insistiu e eu cedi, até por que eu também já estava curioso.
Lá chegando o policial contou, de novo, a mesma história. No entanto, reconhecendo dúvidas de que ela compareceria alegou não ter tirado a Xerox do Boletim de Ocorrência. Marcou que em seu outro plantão as teria... E ela me incumbiu de ir busca-las...
Novamente, no dia aprazado lá estava eu. E este me entregou as cópias. Como eu estava próximo de minha casa resolvi passar por lá primeiro, talvez para almoçar. E também resolvi ler as tais cópias, afinal, era um direito meu, pois fui eu quem as foi buscar! Quase tive um colapso... Eu tinha em mãos dezesseis cópias de Boletim de Ocorrência... Destes quatorze eram de pretos e dois de brancos, explicitamente. Todavia não foi somente isso que me estarreceu não!
Era que ao lembrar que quando nós nascemos os Cartórios, até hoje, relutam em nos registrar como negros... E muito menos como pretos. No entanto, nos atestados de óbito isso constava, a cor preta. Ora! Alguém estava fazendo a contabilidade. Não de entrada neste mundo, mas somente os de saída! Isso não era somente estranho, mas surpreendentemente aterrador. Ainda mais para comigo, que já havia tempo que estava envolvido na pesquisa do genocídio de nosso povo, o negro, no Brasil. Que, aliás, já havia denunciado no Primeiro Seminário Sobre o Genocídio do Negro no Brasil, na Câmara Municipal de São Paulo, pelo CRENJA.
Bem! Se alguém tem alguma dúvida quanto ao que eu estou declarando acima e sobre casos análogos que dê uma chegadinha à Delegacia Seccional Centro, pois segundo o policial, é para lá que estes são enviados e arquivados. Eu entreguei as cópias à advogada e ela se negou a me dar cópias. Mas também, nem preciso! Pois sei onde estão os originais! Toe caroço!
Recentemente, assistindo uma entrevista de um artista-plástico, Vik Muniz, que filmou Arte no Lixo, no Lixão de Gramacho, no Bairro Jardim do mesmo nome na Baixada Fluminense, e tive uma trágica, mas também grata constatação. Trágica por que após 339 anos – dado meu – de trabalho escravo praticado por nossos ancestrais e mais 124 anos, contados até hoje, de desolação, ostracismo e marginalização são deprimentes que neste estado nos encontremos com nosso povo, sobrevivendo ao caos. Volto a repetir! Não estou dizendo que ser pobre seja desonroso, porém o é deprimente e estarrecedor, numa sociedade que se diz justa. A sociedade diz que ser pobre é melhor que roubar... No entanto sobra-nos uma pergunta, esta que não quer se calar: não será também a corrupção uma modalidade de roubo? Pois também faz uso da violência. Não aos cofres-públicos. Quanto a estes a ação até que é também cinicamente “sutil”. A violência se dá contra os interesses do povo. Este que paga caro por toda esta roubalheira. Que serve de desculpa pela má qualidade dos Serviços-Público, mormente os de Saúde, da defasagem do Mercado-de-Trabalho e falência da Educação... Nestes, o povo é prejudicado e literalmente roubado. Mormente a população negra nacional, que teve seus antepassados como construtores deste país.
A felicidade se dá por conta de reencontrar meu povo, que já na década de 70 era dada, oficialmente, como extinto. Vive combalido, porém, sobrevive ao extermínio total. Mesmo que dos apresentados 99% sejam negros, mesmo que alguns pardos. E destes, pelo menos 80% sejam pretos. Ah! Pretos ainda existem no Brasil. E não são poucos Aqueles que Oracy Nogueira (1954) define virtualmente como vítimas do Preconceito de Marca, ou seja, a cor da pele, dentre outros caracteres negroides.
Diz a sociedade ser de responsabilidade de estes estarem neste estado, que são dos próprios culpados por não estudaram. Todavia se “esquecem” de que desde a primeira Constituição, a de 1824, que escravos e doentes contagiosos foram proibidos de frequentarem escolas. Este preceito (ou preconceito se preferirem!) constitucional foi ratificado pela Lei 1331, artigo 69, § 9 de 1856. Este decreto que só teve a sua revogação 96 anos após, em 1950, já quando todas as estratégias racistas de mantiver os negros fora da escola e do mercado-de-trabalho estavam consolidados. E estes foram, e ainda o são, responsabilizados por tal. Descaradamente até também pelo tal e atual “movimento negro brasileiro”, que se omite a respeito e até também o usa em função de seus interesses.
O termo “sútil” empregado no título tem como modelo a expressão “racismo sutil” utilizada pela sociedade branca brasileira para justificar aquilo que o Doutor Hédio da Silva Jr tão bem definiu em sua entrevista no Programa do Jô. Questionou ele: “Racismo é crime em nossa Legislação. E como é possível haver um crime sútil?” Coisas, dentre outras, que a sociedade branca brasileira ainda terá que explicar. E se possível muito bem.
Por enquanto é isso aí! Não é somente contra a discriminação que nós negros brasileiros temos que lutar... E sim também pelas nossas vidas. Sejamos pretos ou mulatos, pobres ou classe-média. Ricos? Bem, rico de princípio não tem cor... Mas também não são pretos e nem brancos! Talvez simplesmente invisíveis. Porque não se apresentam em público. E nem morrem assassinados... A toda hora... Ou pelos mesmos motivos.
É como disse uma antiga “mãe de santo” entrevistada no passado, perguntaram a ela se ela parava de fazer trabalhos na Quaresma? Então ela respondeu: “Não! Eu não posso... Meus inimigos não param!”.
Axé!
São Paulo, 17 de junho de 2011.
Neninho de Obálúwayié
Coordenador Geral do CRENJA
PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
PELO CESSAR IMEDIATO DO EXTERMÍNIO DOS JOVENS E CRIANÇAS NEGRAS NO BRASIL!
PELO IMEDIATO DESOCUPAR DO TERRITÓRIO HAITIANO PELA ONU!
PELO DIREITO DE LEGÍTIMA DEFESA DO POVO NEGRO BRASILEIRO!
CONTRA A CADEIRA PERMANENTE NO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU COM DIREITO A VETO PELO BRASIL!
PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS!