Projeto Phoenix - Memorial da Escravatura*
Por: Neninho de Obalúwáiyé - 7/12/2010
Por: Neninho de Obalúwáiyé - 7/12/2010
No dia 26 último, deste mês de novembro, estivemos juntos, eu e o Ailton Azevedo, atualmente assessor do deputado estadual José Zito (PT), com o Dr. Dennis de Oliveira, na condição de coordenador do NEINB (Núcleo de Estudos Interdisciplinar do Negro Brasileiro), na USP (Universidade São Paulo).
O objetivo da reunião foi a de firmar contrato de parceria junto a esta com intuito de criarmos um memorial voltado à história do negro, embora não contraditante, não somente o brasileiro nacional, mas sim de toda as Américas (do Sul, Central e do Norte).
A proposta de criar a memorial data, ainda, da década de 70, quando reiniciamos os esforços de conscientização e organização do povo negro brasileiro, que a partir da “abolição da escravatura”, donde este foi posto fora do processo produtivo, quando sua atividade foi trocada pela mão-de-obra livre e européia.
E foi quando também o negro, mormente o brasileiro, foi expurgado do jugo direto para a indigência. Sem pecúlio ou qualquer outro tipo de poupança ou ressarcimento o negro se viu às voltas com a sua marginalidade. Donde poucos conseguiram sair, mas a maioria ainda padece de carências e estigmatização, e sem o menor ou qualquer amparo do Estado. No entanto, na época a nossa proposta foi preterida, porquanto, estamos reeditando-a.
Tivemos a preocupação de superar o lugar-comum que o movimento negro brasileiro chafurdou, mesmo que involuntariamente, na questão da discriminação racial. Esta que, com o seu uso intenso, findou por ser esvaziada e se arrasta há mais de 30 anos sem quaisquer perspectivas de solução. O memorial não pretende, e nem podia, se pautar por este caminho. Não por acharmos de pouca importância, muito pelo contrário, mas acontece que como afirmávamos no passado nenhum povo consegue se organizar sem uma história, passada e definida. É muito vago se dizer que demos um “grande contribuição” ou que “o negro brasileiro tem história”.
História todo mundo a tem, seja ela boa ou má, bela ou feia. O nosso constrangimento começa quando somos incitados a contá-la. E, ou por vergonha ou por desconhecê-la mesmo nós sempre nos omitimos.
Oficialmente, nós trabalhamos 370 anos em regime de escravidão. Fizemos não somente a realização econômica da burguesia colonial nacional, muito pelo contrário, também fizemos a fortuna da antiga Metrópole, Portugal, esta que se estendeu a toda Europa, propiciando, como disse Karl Marx: “a escravidão foi fundamental para a acumulação de capital”, que por sua vez proporcionou a Revolução Industrial. Esta que colocou também a Europa na vanguarda imperialista. Quanto a nós outros ficamos apenas com o escárnio da sociedade, e execrados.
De princípio, nós pensamos em tratar, no referido memorial, enfocar a população negra nacional. Porém, esbarramos em sérios empecilhos. Primeiro que, até por força de lei, o negro brasileiro foi mantido na ignorância cultural e histórica, até mesmo de nossa origem. O Continente africano, nos dizeres dos dominantes, não passava de um local inóspito e rude, e sem quaisquer resquícios de cultura e civilidade. Esta estória nos foi contada por mais de 100 anos. Só recentemente é que começamos a conhecê-la mais amiúdo.
Não importando a nossos algozes sua história ser muito rica, em sendo a África o berço da humanidade, até então provado. Esta história somente agora começa a nos ser contada, na versão e visão de nossos opressores contemporâneos. Estes que sempre versionam visando seus próprios e exclusivos interesses. Esta história tem que ser recontada. E a história do negro brasileiro reescrita. Agora, sob a nossa óptica. Não se esquecendo, todavia, de que devamos ser ressarcidos de nossos desatinos, pois entramos nesta a nossa revelia.
No princípio do movimento negro, aqui no Brasil, assim como em todas as suas iniciativas análogas, nós fomos impelidos à busca de nosso panteão de heróis. Todos os povos deste Planeta se alicerçam em mitos... E a nós somente sobrou Zumbi de Angola Janga (Palmares). No esforço tivemos que invocarmos alguns outros que nem sequer se esmeraram, muito pelo contrário, tinham um interesse maior, sempre, na proclamação da república. Joaquim Nabuco, por exemplo, não escondia, deixando claro em seus discursos em plenário: “Eu não defendo a abolição por causa do negro. A minha preocupação é a imagem do país no Exterior”.
José do Patrocínio, por sua vez tinha um discurso parecido, tanto que ao participar da contenda quando se pagaria ou não indenização aos escravos foi eloquente: “Aos negros a liberdade por si só é suficiente”, e centrou legal em pró da Monarquia e escravistas... em detrimento ao negro brasileiro. Sendo, portanto, este, um traidor, e não herói. Economizando, o único desta fase “abolicionista” digno de nossas notas e aplausos, Luiz Gama.
Luiz Gama, filho de escrava com fidalgo português, ele foi vendido e alforriado. Aprendeu a ler e escrever com um filho de seu antigo escravista, através da Bíblia. No autodidatismo tornou-se advogado. Defendeu nesta condição negros e brancos, se consagrando. Em toda a sua carreira defendeu e libertou do cativeiro algo em torno de 500 “escravos”.
Acontece que com estes fatos a história do negro, em contraste com a deste país, é pífia. Mesmo imaginando que ocorreram ações de um “exército” de anônimos. Levando-se em consideração que a história oficial nunca se importou em registrar a história de dominados. Aliás, em momento algum estas foram registradas: pois, os derrotados nunca mereceram, por parte da História, nenhuma consideração. E o negro brasileiro tem esta dívida e desvantagem.
Sim, o negro brasileiro tem história, porém, esta de derrotado. E derrotado nunca foi visto com bons olhos – nem dos seus - como herói. E nem tem a sua história contada e registrada nos anais.
Uma de nossas deficiências era a de que, no decorrer de toda a história, seríamos minoria numérica. E hoje já nos sabemos maioria... E o que isso muda? Nada! Continuamos dominados e escorraçados físicos e moralmente. Não obstante, não há a menor perspectiva de recuperação. O movimento negro brasileiro blefa quando vende esperanças. Os morros cariocas foram ocupados, sim, há alguns anos atrás, em seguida à “abolição”. Por não termos para onde ir.
Foram escolhidos locais ermos para nosso habitat, e hoje estamos novamente sendo escorraçados destes. Novamente sendo postos no olho da rua. Foi tudo armação: primeiro vieram às drogas, depois as armas e agora as Forças Armadas e demais aparato repressivo.
Querem acabar logo a guerra. Guerra que começou, no que diz respeito a nós, no princípio do século XVI. E nestes nós não ganhamos, até agora, nenhuma só batalha. Porquanto, à luta! Não podemos esmorecer.
Outro empecilho é o de que foram queimados todos os documentos referentes ao tráfico de africano para o Brasil. Portanto isto dificulta a nossa identificação. Ledo engano! Pois estes documentos existem cópias na Europa e na própria África. Bastando, apenas e tão somente, ir buscá-los. Se este é um problema, com o memorial será fácil resolvê-lo.
Outro engano é pensar que a situação vivida pelo negro brasileiro é única. Não há diferença entre nosso dilema e os dos demais afros-descendentes da diáspora. Assim como podemos nos exemplar na situação do Haiti. Esta que também nos tentam esconder.
São Paulo, 28 de novembro de 2010.
PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS!
*O título original do artigo é "Projeto Phoenix - Memorial da Escravatura Negra nas Américas".
A proposta de criar a memorial data, ainda, da década de 70, quando reiniciamos os esforços de conscientização e organização do povo negro brasileiro, que a partir da “abolição da escravatura”, donde este foi posto fora do processo produtivo, quando sua atividade foi trocada pela mão-de-obra livre e européia.
E foi quando também o negro, mormente o brasileiro, foi expurgado do jugo direto para a indigência. Sem pecúlio ou qualquer outro tipo de poupança ou ressarcimento o negro se viu às voltas com a sua marginalidade. Donde poucos conseguiram sair, mas a maioria ainda padece de carências e estigmatização, e sem o menor ou qualquer amparo do Estado. No entanto, na época a nossa proposta foi preterida, porquanto, estamos reeditando-a.
Tivemos a preocupação de superar o lugar-comum que o movimento negro brasileiro chafurdou, mesmo que involuntariamente, na questão da discriminação racial. Esta que, com o seu uso intenso, findou por ser esvaziada e se arrasta há mais de 30 anos sem quaisquer perspectivas de solução. O memorial não pretende, e nem podia, se pautar por este caminho. Não por acharmos de pouca importância, muito pelo contrário, mas acontece que como afirmávamos no passado nenhum povo consegue se organizar sem uma história, passada e definida. É muito vago se dizer que demos um “grande contribuição” ou que “o negro brasileiro tem história”.
História todo mundo a tem, seja ela boa ou má, bela ou feia. O nosso constrangimento começa quando somos incitados a contá-la. E, ou por vergonha ou por desconhecê-la mesmo nós sempre nos omitimos.
Oficialmente, nós trabalhamos 370 anos em regime de escravidão. Fizemos não somente a realização econômica da burguesia colonial nacional, muito pelo contrário, também fizemos a fortuna da antiga Metrópole, Portugal, esta que se estendeu a toda Europa, propiciando, como disse Karl Marx: “a escravidão foi fundamental para a acumulação de capital”, que por sua vez proporcionou a Revolução Industrial. Esta que colocou também a Europa na vanguarda imperialista. Quanto a nós outros ficamos apenas com o escárnio da sociedade, e execrados.
De princípio, nós pensamos em tratar, no referido memorial, enfocar a população negra nacional. Porém, esbarramos em sérios empecilhos. Primeiro que, até por força de lei, o negro brasileiro foi mantido na ignorância cultural e histórica, até mesmo de nossa origem. O Continente africano, nos dizeres dos dominantes, não passava de um local inóspito e rude, e sem quaisquer resquícios de cultura e civilidade. Esta estória nos foi contada por mais de 100 anos. Só recentemente é que começamos a conhecê-la mais amiúdo.
Não importando a nossos algozes sua história ser muito rica, em sendo a África o berço da humanidade, até então provado. Esta história somente agora começa a nos ser contada, na versão e visão de nossos opressores contemporâneos. Estes que sempre versionam visando seus próprios e exclusivos interesses. Esta história tem que ser recontada. E a história do negro brasileiro reescrita. Agora, sob a nossa óptica. Não se esquecendo, todavia, de que devamos ser ressarcidos de nossos desatinos, pois entramos nesta a nossa revelia.
No princípio do movimento negro, aqui no Brasil, assim como em todas as suas iniciativas análogas, nós fomos impelidos à busca de nosso panteão de heróis. Todos os povos deste Planeta se alicerçam em mitos... E a nós somente sobrou Zumbi de Angola Janga (Palmares). No esforço tivemos que invocarmos alguns outros que nem sequer se esmeraram, muito pelo contrário, tinham um interesse maior, sempre, na proclamação da república. Joaquim Nabuco, por exemplo, não escondia, deixando claro em seus discursos em plenário: “Eu não defendo a abolição por causa do negro. A minha preocupação é a imagem do país no Exterior”.
José do Patrocínio, por sua vez tinha um discurso parecido, tanto que ao participar da contenda quando se pagaria ou não indenização aos escravos foi eloquente: “Aos negros a liberdade por si só é suficiente”, e centrou legal em pró da Monarquia e escravistas... em detrimento ao negro brasileiro. Sendo, portanto, este, um traidor, e não herói. Economizando, o único desta fase “abolicionista” digno de nossas notas e aplausos, Luiz Gama.
Luiz Gama, filho de escrava com fidalgo português, ele foi vendido e alforriado. Aprendeu a ler e escrever com um filho de seu antigo escravista, através da Bíblia. No autodidatismo tornou-se advogado. Defendeu nesta condição negros e brancos, se consagrando. Em toda a sua carreira defendeu e libertou do cativeiro algo em torno de 500 “escravos”.
Acontece que com estes fatos a história do negro, em contraste com a deste país, é pífia. Mesmo imaginando que ocorreram ações de um “exército” de anônimos. Levando-se em consideração que a história oficial nunca se importou em registrar a história de dominados. Aliás, em momento algum estas foram registradas: pois, os derrotados nunca mereceram, por parte da História, nenhuma consideração. E o negro brasileiro tem esta dívida e desvantagem.
Sim, o negro brasileiro tem história, porém, esta de derrotado. E derrotado nunca foi visto com bons olhos – nem dos seus - como herói. E nem tem a sua história contada e registrada nos anais.
Uma de nossas deficiências era a de que, no decorrer de toda a história, seríamos minoria numérica. E hoje já nos sabemos maioria... E o que isso muda? Nada! Continuamos dominados e escorraçados físicos e moralmente. Não obstante, não há a menor perspectiva de recuperação. O movimento negro brasileiro blefa quando vende esperanças. Os morros cariocas foram ocupados, sim, há alguns anos atrás, em seguida à “abolição”. Por não termos para onde ir.
Foram escolhidos locais ermos para nosso habitat, e hoje estamos novamente sendo escorraçados destes. Novamente sendo postos no olho da rua. Foi tudo armação: primeiro vieram às drogas, depois as armas e agora as Forças Armadas e demais aparato repressivo.
Querem acabar logo a guerra. Guerra que começou, no que diz respeito a nós, no princípio do século XVI. E nestes nós não ganhamos, até agora, nenhuma só batalha. Porquanto, à luta! Não podemos esmorecer.
Outro empecilho é o de que foram queimados todos os documentos referentes ao tráfico de africano para o Brasil. Portanto isto dificulta a nossa identificação. Ledo engano! Pois estes documentos existem cópias na Europa e na própria África. Bastando, apenas e tão somente, ir buscá-los. Se este é um problema, com o memorial será fácil resolvê-lo.
Outro engano é pensar que a situação vivida pelo negro brasileiro é única. Não há diferença entre nosso dilema e os dos demais afros-descendentes da diáspora. Assim como podemos nos exemplar na situação do Haiti. Esta que também nos tentam esconder.
São Paulo, 28 de novembro de 2010.
PELO CESSAR IMEDIATO DO GENOCÍDIO DO NEGRO NO BRASIL!
PELO MEMORIAL DA ESCRAVATURA NEGRA NAS AMÉRICAS!
*O título original do artigo é "Projeto Phoenix - Memorial da Escravatura Negra nas Américas".

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