CRENJA CENTRO DE RESISTÊNCIA NEGRA JAGAS ANGOLA União, Solidariedade, Saber e Luta! e-mail: crenja@uol.com.br O PODER NEGRO Os últimos acontecimentos, provenientes da disputa eleitoral de “nosso” país, que incandesceram nossos ânimos e nos dividiram – ainda mais? -, mormente a militância negra brasileira. Todavia, nos deixou um saldo que, digamos, seja positivo. Isso é, se for que existem alguns resquícios de sensatez, boa-vontade e empenho, de fato, em solucionarmos os nossos problemas mais prementes de existência étnica nesse país, e que nos encaminham para um crucial dilema. Estes nos encaminham ou à nossa inevitável extinção em quanto povo e etnia, ou ao Poder... E a nada mais. A primeira hipótese fica-nos difícil de aceitar. E por motivos bastante simples e óbvios: nós, “negros brasileiros” – assim como, atualmente, a maioria os demais povos negros da diáspora – entramos à nossa revelia nesta história estúpida, fútil e inconsequente de “civilização judaico-cristã ocidental”. Esta que já perdura no poder por cinco, pelo menos, (5) séculos, e a perspectivas que temos até agora é a que este somente findará com fim da vida no Planeta. E este não é apenas uma desconfiança. É um fato quase consumado. E é ela própria que assevera isso. Não obstante, os nossos incautos “irmãos” prosseguem, hilários e absurdos, ansiando por mais uma, e já secular, de suas propostas pérfidas, mentirosa e fútil: a “democracia racial”. O resultado do nosso empenho não nos surpreendeu. Nós, já esperávamos por ele. Porque em momento algum nós imaginamos que “A Sinhá de Engenho” fosse descer de seu luxuoso e espetacular pedestal e vir abaixo discutir com “seus negrinhos” sobre problemas que são “somente nosso”, no seu entender e de seu partido... E não deles também. E nem de seu povo, que se imagina também estar no poder – e que, aliás, verdade seja dita, já estão no poder há também quinhentos (500) anos, e absolutos, em suas devidas graduações sociais. E por outro lado, também deram-nos o ensejo de conhecermos melhores os “nossos irmão”, de raça e de “luta”, os neocapitães-do-mato. Aqueles que, na hora do vamos ver ficam sempre do lado do Sinhô. Ou simplesmente encima do muro. Ora, estão identificados, e com chancelas. Por que nós não pedimos nada demais. Nós não dissemos, em momento algum, que iríamos votar na oposição – e nem o faríamos, pois além de sermos conscientes de fato, nós temos também a certeza de que somos sensatos, e apenas estávamos fazendo política. O que estávamos propondo era apenas uma negociação, num momento que era para nós propício e desfavorável para a situação, e isso é política, hora de exigirmos o nosso quinhão, que nos é de direito, e que de outra forma não virá. Confessamos, que nós não estávamos sendo nada de originais... Apenas aprendemos com eles. Pois esta é uma prática secular se não milenar dos capitalistas e algozes: esperar que outrem se aperte para tirar as suas vantagens. Porquanto, não nos venham com esta de “perfídia”. Se alguém traiu – e fazem isso há séculos – esse alguém por certo não fomos nós. Nós estávamos apenas cumprindo com nosso direito constitucional e democrático de “livre manifestação de opinião e expressão”. Voltamos a dizer que se alguém traiu por certo não fomos nós. E sim esta tralha pérfida de títeres traiçoeiros que se dizem negros e militantes, e que defendem somente os seus próprios interesses e os de seus donos, e não os nossos, coletivamente. São pérfidos, que se vendem por quaisquer quinquilharias, como no passado, no presente e o farão no futuro – isto é, se nós deixarmos. Pois não vimos, ainda, nenhum deles que enriqueceu. Fazem-no gratuitamente, na ânsia de agradar o Sinhô. Vivem por aí de chapéu nas mãos, tal qual mendigos, a esmolar alguns trocados do poder. Dinheiro este roubado dos Cofres-públicos, porquanto, já nosso. E eles são cúmplices. Portanto reafirmamos: se houve traição por certo não fomos nos que a cometemos. Porque não se podem trair inimigos. Traição é quando se comete contra si próprio e ao seu próprio povo. Nos Estados Unidos da América, durante a década de sessenta (60), o movimento negro local lutava por direitos civis. Mas havia um outro grupo que era mais radical e objetivo, e se autodenominava “Black Panther”. Panteras Negras, numa tradução mais literal. Estes não queriam apenas os seus direitos mais elementares, eles iam mais além... Eles lutavam pelo Poder, político e econômico. E tinham um discurso bastante original que dizia: “Há dois tipos de negros: os negros da Casa Grande e os negros de Senzala. Os negros da Casa Grande moram sob o mesmo teto de seus senhores. Comem a mesma comida de seus senhores e vestem as suas mesmas roupas. E quando os seus senhores adoecem correm a orar para o Deus de seus senhores pedindo para que estes sejam curados. Pois temem que se eles morram, além de perderem seus privilégios, ainda perecerão juntos com eles. Já o negro de senzala não. Estes não moram sob o mesmo teto dos “senhores”. Não comem e nem vestem as mesmas comidas e roupas de seus senhores. E quando o “seu” senhor adoece oram para seu Deus, Olorum, que eles morram “. E eles finalizavam: ”Nós somos negros de Senzala “. E aqui no Brasil, não apenas para sermos mais originais, nós da Resistência temos um outro mote para finalizar o discurso: “Nós não somos negros nem da Casa Grande e nem da Senzala... Nós somos negros do Quilombo”. Coisa que eles lá não os tiveram. E dele não arredamos pé. Nem no tempo do cativeiro, e nem no pós-abolição da escravatura. A nossa luta por liberdade ainda continua. Doa a quem doer. Pois nós somos negros livres, negros de alma livre, e não será uma patota de negros pelegos que nos farão arredar, e muito menos nos forçar a se submeter aos caprichos de seus senhores. A eleição está aí. E a nós restou apenas o “privilégio” de escolhermos entre qual dos racistas é o melhor. E como bons “partidários” que somos, nós ficaremos sempre com o racista de nosso partido político. E isso é o que pensam. E isso é o que querem. E até quando não sabemos! Apenas por termos que entender que o “nosso” partido e candidato(a) são um pouco melhor que os outros. Essa é a “nossa lógica, única esperança e opção (?)”. Porquanto, esperamos que esta eleição nos sirva a lição, e que nas próximas tenhamos mais sorte, lucidez e compreensão. Que não tenhamos mais que defender os interesses de outrem, de nossos algozes, e sim os nossos próprios. Que defendamos apenas os nossos e os de nosso povo, que, aliás, já tão sofrido e que espera, de nós, por soluções a suas reais aflições... Em nossas últimas pesquisas constatamos que esta opressão que se abate sobre nosso povo não tem origem na contemporaneidade, muito pelo contrário, pois esta tem início há milênios, há 2.500 anos atrás, para sermos mais exatos. Começa quando no século VI antes do Cristo, quando os gregos e romanos iniciaram suas irrupções junto ao Norte da África e, consequentemente, a nos fazerem de seus escravos. Depois vieram os judeus, os árabes. E, já os portugueses, ingleses e espanhóis vieram um pouco mais tarde. E depois os holandeses e o resto da tralha européia. Isso se deu somente a partir do século XVI, depois do Cristo. Portanto, nós, “negros americanos”, não somos pioneiros e nem únicos nesta desdita. E nesta, nós também chegamos atrasados... E somente esperamos que sejamos os primeiros a sair desta condição indigna, incômoda, ingrata e nefasta, a de “lixo do mundo”. Porquanto conclamamos: AGORA! SÓ O PODER NOS BASTA! E como consegui-lo? Olorum nos orientará e ajudará. Aliás, Ele já até começou: a casa deles há muito que caiu... há muitos tempos começou a desabar. Sucumbiremos juntos a eles? Não! É chegada a hora de lutar. E agora, de fato. São Paulo, 26 de outubro de 2010. Neninho de Obalúwáiyé - Coordenador Geral do CRENJA |
O CRENJA (Centro de Resistência Negra Jagas Angola) surgiu em 1975. É uma entidade sem fins lucrativos que engrossa a luta do negro brasileiro em pró de sua evolução social, cultural e política. Neninho de Obalúwáiyé Coordenador Geral do CRENJA
terça-feira, 26 de outubro de 2010
O PODER NEGRO
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